Reproduzo comentário de Luciano Martins Costa, publicado no Observatório da Imprensa:
Os jornais noticiam, na segunda-feira (18/10), que a Polícia Federal, a mando da Justiça Eleitoral, apreendeu cerca de 1 milhão de panfletos contra a candidata governista, Dilma Rousseff, numa gráfica que pertence à irmã do coordenador de infraestrutura da campanha de José Serra, Sérgio Kobayashi.
Os panfletos, de responsabilidade da Regional Sul da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, vinham sendo distribuídos por militantes do PSDB.
No domingo (17), dois ativistas da campanha de José Serra coordenavam a entrega do panfleto diante da capela da Pontifícia Universidade Católica, no bairro de Perdizes, em São Paulo, abordando os fiéis à saída da missa. Diziam que, se eleita, Dilma Rousseff vai estimular o aborto nas famílias de classe média para assegurar a maioria de pobres que, segundo afirmavam, são manipulados por políticas sociais. Citavam o caso do apartheid na África do Sul, enquanto uma militante reforçava o discurso dizendo em voz alta que Dilma Rousseff quer esterilizar as mulheres de classe média.
Fato real
A Polícia Federal revelou a conexão direta entre o núcleo da candidatura oposicionista e a campanha obscurantista patrocinada pelos bispos que sonham controlar a CNBB. Trata-se de ato de delinquência, tipificado como crime eleitoral.
Diante do flagrante delito, escorrem desmentidos de todos os tipos, e cabe à imprensa manter o assunto em evidência e investigar o caso.
A dona da gráfica, segundo a Folha de S.Paulo, é filiada ao PSDB desde 1991. Resta apurar quem pagava a impressão, se os bispos empenhados em cobrir a campanha eleitoral com seu discurso medieval ou se o dinheiro vinha do caixa da campanha de José Serra.
Mesmo que lhe interesse visceralmente virar a tendência do eleitorado e que tenha demonstrado, até aqui, uma bizarra flexibilidade quanto às boas práticas jornalísticas, é de se esperar que a imprensa tradicional ainda conheça alguns limites de decência.
O flagrante na gráfica que pertence a destacados militantes do PSDB é um fato real, não uma denúncia a ser investigada. Trata-se do evento mais escandaloso da atual campanha. Vamos ver quanto tempo permanece no noticiário.
Guerra de panfletos
Os leitores atentos devem ter observado que a capa da revista IstoÉ desta semana é uma referência à capa da revista Veja da semana anterior.
Na semana passada, Veja retratou a ex-ministra Dilma Rousseff em duas posições opostas, tentando representar uma suposta contradição da candidata diante da questão do aborto. Nesta semana, IstoÉ faz o mesmo com José Serra, mostrando-o também em duas imagens invertidas. Numa delas, com a frase segundo a qual o ex-governador nega conhecer o engenheiro Paulo Vieira de Souza, apelidado de Paulo Preto. Na outra, Serra reconhece o personagem e o elogia.
Paulo Vieira de Souza, obscuro avatar de obras públicas e campanhas eleitorais retirado das sombras pela IstoÉ, tornou-se desde a semana passada um dos eixos em torno dos quais a campanha eleitoral patina sem chegar aos temas que realmente importam para a escolha de um candidato à Presidência da República.
O outro tema, que envolve a intervenção do Estado em relação ao livre arbítrio das mulheres diante da questão do aborto, segue sendo alimentado por iniciativa do bispo de Guarulhos, com apoio oficial da coordenação de infraestrutura da campanha do PSDB, segundo apurou a Polícia Federal.
No que se refere à imprensa, convém esclarecer em que ponto da campanha os editores perderam as referências do bom jornalismo e aceitaram se transformar em meros coadjuvantes dos marqueteiros de candidatos.
Que os jornais chamados de circulação nacional estão há meses empenhados em fornecer munição para uma das candidaturas, não pode restar dúvida. O que está ainda por ser provado é até que ponto irão arriscar suas reputações para fazer valer suas preferências políticas.
O empenho da chamada grande imprensa em tentar impor um candidato à opinião pública ainda está por receber uma análise apropriada dos pesquisadores em comunicação, em torno de uma questão central: o que tanto temem os donos das empresas de mídia dominantes, em caso de vitória da ex-ministra Dilma Rousseff?
Os estudiosos estão dispensados de perscrutar as razões da revista Veja, que há muito deixou de produzir jornalismo para se transformar em panfleto.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Eleições e dilemas das classes médias
Reproduzo artigo de Juarez Guimarães, publicado no sítio Carta Maior:
À Maria Rita Kehl
Em seu poema mais terno, comovente e terrível, o maior poeta negro brasileiro, Cruz e Souza, versa sobre o berço do recém nascido:
“Meu filho que eu adoro e cubro de carinhos,/ que do mundo vilão ternamente defendo,/ Há de mais tarde errar por tremendais e espinhos/ Sem que o possa acudir no suplício tremendo.”
E mais adiante:
“Tu não sabes, jamais, tu nada sabes, filho,/ Do tormentoso Horror, tu nada sabes, nada.../ O teu caminho é claro, é matinal de brilho,/ Não conheces a sombra e os golpes da emboscada.”
Postado assim no livro “Faróis”, um pouco antes do belíssimo “Litania dos pobres” (“As sombras das sombras mortas,/Cegos, a tatear nas portas./ Procurando o céu, aflitos/ E varando o céu de gritos./ Faróis à noite apagados/ Por ventos desesperados/ Inúteis, cansados braços/ Pedindo amor aos Espaços./ Mãos inquietas, estendidas/ Ao vão deserto das vidas.” e mais adiante : “Bandeiras rotas, sem nome,/ Das barricadas da fome.”), o poema “Meu filho” de Cruz e Souza parece-se como uma oração desesperada de todos os pobres do Brasil aos recém nascidos de seu amor.
A consciência mais alta dos abolicionistas brasileiros, no fim do século XIX, chegou à conclusão de que a abolição não era principalmente um imperativo de modernização econômica nem apenas uma dádiva humanitária para com os negros. O que estava em jogo ali era um princípio de civilização: enquanto houvesse escravidão, não seria possível formar uma moralidade do cidadão, toda cultura cívica seria cínica, a própria dignidade do trabalho seria negada. Hoje, nestes inícios do século XXI, o que está em jogo mais do que a força econômica autônoma do Brasil, muito além da comiseração com a vida de humilhações e carências dos pobres, é também um princípio de civilização.
Ou retornamos ao princípio de civilização dos anos noventa, da era Fernando Henrique Cardoso, o qual, pela apologia do mercado, se legitimava a exposição ostensiva da riqueza em meio à legião dos pobres e o cultivo da diferença social como sinal de status, ou vamos formar a casa comum da democracia brasileira, vamos aparar os extremos em direção ao predomínio das “classes médias”, vamos formar, enfim, o cidadão e a cidadã de direitos e deveres simétricos. O que está em jogo é a nossa moralidade, a possibilidade de nossa cultura cívica republicana, o destino democrático que formamos na crítica ao nosso passado de violenta exclusão.
As engenharias mercantis da produção da miséria em massa produzem a morte física: pela fome ou subnutrição, pelas epidemias evitáveis ou pela vida subtraída pelo cuidado sanitário precário, pelas genocídios de jovens pobres nas periferias. Ao final dos anos noventa, pela primeira vez na história brasileira no século XX, a esperança média de vida dos brasileiros parou de crescer. Mas a injustiça – legitimada ou cinicamente absorvida – produz um aleijão na alma do cidadão: as nossas crianças e jovens – mesmo as mais protegidas – não ficam imunes à legião dos pobres nas ruas mais suntuosas, pessoas a cata dos restos nos lixos dos bairros mais ricos, o pobre suspeito de ser criminoso e o rico absolvido de todos os crimes.
Não se trata de dividir o mundo pequeno dos privilegiados ou socializar os privilégios para todos. “A felicidade ou é compartilhada ou não vigora”, escreveu o presidente Lula como dedicatória ao livro de sua biografia presenteado a Dom Luciano Mendes, como este mesmo próprio revelou a uma platéia de ouvintes comovidos. O que se trata exatamente é a meta de por fim aos privilégios: expandir o espaço da vida de cada um pela expansão da riqueza da vida social, prosperar o nosso quinhão de afetos pela amizade e amorosidade da vida em comum, modular em aquarela as cores de nossa vida subjetiva ao sentimento do mundo, como versou o poeta maior.
Desterrados na própria terra?
Talvez a mais fina leitura do livro “Raízes do Brasil”, do mestre Sérgio Buarque de Holanda, revelou que em sua primeira edição ele escrevia na abertura uma contradição: ao modo de Gilberto Freyre, ele trazia o reconhecimento de que havia se enraizado aqui uma civilização nos trópicos ; mas, ao mesmo tempo, ao modo de Euclides da Cunha, éramos desterrados na própria terra. Nas edições seguintes, esta tensão criativa teria se apagado, ficando soberana a noção do desterro. O fino leitor, porém, preferia a tensão, ao modo da obra que cresce na sua abertura de sentidos.
O fato é que esta tensão veio hoje ao centro da democracia brasileira. Continuaremos a ser desterrados na nossa própria terra, como uma nação que não se fez, ou construiremos aqui a mais bela e generosa civilização democrática e interracial dos trópicos, na utopia mesma de Darcy Ribeiro?
O tema do desterro ou do exílio estrutura a cultura brasileira desde o século XIX, quando ela começou a procurar nossa identidade, entre a cópia do centro ou a busca da originalidade. Origem, identidade e destino, amarrados na mesma imaginação: de onde viemos, o que somos e para onde vamos ? Na clareira da dúvida, emergiu o tema do sertão: dentro de nós, ao redor de nós, presença do mal ou ausência do bem, o lugar onde vige a violência na ausência da lei, nossas veredas. Como numa comédia farsesca, o “bem” e o “mal” voltaram hoje a terçar armas em busca da consciência dos brasileiros. Mas nem Hermógenes (o princípio do mal no sertão) nem o fero belo Diadorim (o princípio do bem absoluto no sertão) : mas Riobaldo e sua fala sábia, humanizando o imperfeito do vivido, repropondo para nós o caminho do livre e do justo.
No desterro, os ricos abandonam a noção de nação e migram para seus oligárquicos céus do cosmopolitanismo: os de tradição, para a Europa, os “novos ricos” para Miami, erguem fossos e pontes levadiças em seus condomínios de luxo. Os pobres, ah! Os pobres, estes migram para os infernos: para o anonimato do desemprego ou os sem nome do emprego precário, para as drogas e seus circuitos, para o sobre humano esforço pela sobrevida de cada dia.
E as classes médias o que fazem: elas vão ao limbo, sem identidade de Nação, sem futuro para os filhos, com a universidade cada vez mais restrita ou mais cara e os planos de saúde que faltam na hora mais crítica, com a humilhação de ser brasileiro, fugindo da bala perdida e evitando as zonas do “no man´s land” das cidades perigosas.
No governo Lula, o sertão não virou mar mas recomeçamos a construção interrompida da Nação. A nação democrática e republicana é, por sua própria natureza, a identidade e futuro das classes médias brasileiras. Vamos retornar ao limbo?
Estado do Bem-Estar Social
Na hora mais grave de sua história, os ingleses, na linguagem de seus liberais cívicos e trabalhistas, cunharam o lema do “Estado do Bem-Estar Social”. Este grito de civilização contrastava com o outro, da barbárie, vindo da Alemanha de Hitler, o Estado da guerra, da máquina de guerra nazista. “Sangue, suor e lágrimas”, os ingleses uniram a Nação e resistiram. Hoje, decerto, não há nenhum Hitler às portas do Brasil, mas quem ousaria negar que a barbárie da violência social ainda ronda o nosso cotidiano e, pode, se a linha vitoriosa nestas eleições for neoliberal, voltar a crescer?
Coube a Maria Lúcia Werneck Vianna falar, pela primeira vez entre nós, ainda no final dos anos oitenta, da americanização perversa de nossa vida social. “Escolas para ricos” segregadas de “escolas para pobres”; “saúde para ricos” e “saúde para pobres”; previdência privada e imprevidência para todos. Mas como dizia o Relatório Beveridge, fundador do sistema de Bem-Estar inglês, uma medicina só para pobres será sempre uma pobre medicina. No final dos anos noventa, já se falava entre nós das dinâmicas de apartação social, isto é, estávamos reproduzindo aqui no Brasil o sistema do apartheid vigente na África do Sul, só que com o estigma social da riqueza e da pobreza.
O Estado do Bem-Estar é, por natureza, o lugar do interesse público, do encontro necessário e possível entre trabalhadores e classes médias, entre os direitos do trabalho e os direitos da mulher, da educação pública e do SUS pleno, do emprego garantido e da previdência firmada, da economia do setor público e dos avanços da democracia.
Em um regime do Bem-Estar, as classes médias podem realizar, de modo universalista, seus interesses: a inclusão de miseráveis e pobres, que no Brasil quase equivalem a uma França inteira, gera uma plataforma de milhões de novos empregos para engenheiros, médicos, dentistas, psicólogos, advogados, comunicadores e economistas. A expansão das funções públicas do Estado gera uma profusão de concursos públicos. A recuperação dos bancos públicos produz uma pressão de baixa nos juros e o crédito para a compra de casas torna-se acessível; a retomada dos investimentos em ciência e tecnologia alenta as carreiras universitárias. Crescem as receitas do Estado, diminuem as dívidas públicas e as políticas sociais podem almejar metas de universalização. A violência social diminui claramente e os jovens de periferia entram, com passos firmes, no circuito da civilização, das artes e da educação, com suas próprias identidades. A reforma agrária e a agricultura familiar expandem e barateiam a produção de alimentos. A força da economia do setor público permite planejar e evitar a predação da natureza que nos ameaça.
Com uma dinâmica de Bem-Estar, cria-se uma infra-estrutura econômica propícia à retomada da moralidade pública, de desprivatização do Estado e de suas cadeias alentadoras de privilégios ou de rentismos. O interesse público passa se a base de uma vida política pública virtuosa.
O governo Lula deve ser reconhecido como o que mais fez até hoje na luta contra a corrupção: através do fortalecimento da Controladoria Geral da União (CGU), da multiplicação das operações da Polícia Federal, da criação de Corregedorias em todos os ministérios, da auditagem das verbas federais que vão para os municípios e estados, da garantia da independência do Ministério Público Federal, da punição aos corruptores, da transparência dos gastos públicos e do envio ao Congresso Nacional de novas leis de punição exemplares aos corruptos. Mas é evidente que, por seu caráter histórico e sistêmico, a corrupção exige medidas mais profundas, como a Reforma Política, e uma postura mais intransigente.
A voz da república
Com os ricos e grandes capitalistas e banqueiros e agro-business alinhados com Serra e pobres, sindicatos e sem-terra mais alinhados com Dilma, o segundo turno destas eleições presidenciais de 2010 será decidido pelo voto das classes médias.
Serra oferece a elas uma apologia virulenta de um sentimento contra a esquerda, contra as morais emancipatórias da mulher e um ressentimento de quem vê seus privilégios ameaçados, ao mesmo tempo, que satura os seus programas de televisão de pobres, tentando fugir à identidade de ser o candidato dos “bem... ricos”, como diz o refrão da campanha de Dilma.
O argumento moral que solda liberdade e justiça, o sentimento da identidade e orgulho de ser brasileiro e o rico mundo dos interesses públicos do Estado Bem-Estar Social constituem três grandes argumentos para o seu voto em Dilma.
Se Vinícius de Moraes estivesse presente entre nós, ele apenas aconselharia as classes médias brasileiras a ouvir a bela canção de Orfeu, que ele figurou como um menino negro no alto de uma favela brasileira.
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À Maria Rita Kehl
Em seu poema mais terno, comovente e terrível, o maior poeta negro brasileiro, Cruz e Souza, versa sobre o berço do recém nascido:
“Meu filho que eu adoro e cubro de carinhos,/ que do mundo vilão ternamente defendo,/ Há de mais tarde errar por tremendais e espinhos/ Sem que o possa acudir no suplício tremendo.”
E mais adiante:
“Tu não sabes, jamais, tu nada sabes, filho,/ Do tormentoso Horror, tu nada sabes, nada.../ O teu caminho é claro, é matinal de brilho,/ Não conheces a sombra e os golpes da emboscada.”
Postado assim no livro “Faróis”, um pouco antes do belíssimo “Litania dos pobres” (“As sombras das sombras mortas,/Cegos, a tatear nas portas./ Procurando o céu, aflitos/ E varando o céu de gritos./ Faróis à noite apagados/ Por ventos desesperados/ Inúteis, cansados braços/ Pedindo amor aos Espaços./ Mãos inquietas, estendidas/ Ao vão deserto das vidas.” e mais adiante : “Bandeiras rotas, sem nome,/ Das barricadas da fome.”), o poema “Meu filho” de Cruz e Souza parece-se como uma oração desesperada de todos os pobres do Brasil aos recém nascidos de seu amor.
A consciência mais alta dos abolicionistas brasileiros, no fim do século XIX, chegou à conclusão de que a abolição não era principalmente um imperativo de modernização econômica nem apenas uma dádiva humanitária para com os negros. O que estava em jogo ali era um princípio de civilização: enquanto houvesse escravidão, não seria possível formar uma moralidade do cidadão, toda cultura cívica seria cínica, a própria dignidade do trabalho seria negada. Hoje, nestes inícios do século XXI, o que está em jogo mais do que a força econômica autônoma do Brasil, muito além da comiseração com a vida de humilhações e carências dos pobres, é também um princípio de civilização.
Ou retornamos ao princípio de civilização dos anos noventa, da era Fernando Henrique Cardoso, o qual, pela apologia do mercado, se legitimava a exposição ostensiva da riqueza em meio à legião dos pobres e o cultivo da diferença social como sinal de status, ou vamos formar a casa comum da democracia brasileira, vamos aparar os extremos em direção ao predomínio das “classes médias”, vamos formar, enfim, o cidadão e a cidadã de direitos e deveres simétricos. O que está em jogo é a nossa moralidade, a possibilidade de nossa cultura cívica republicana, o destino democrático que formamos na crítica ao nosso passado de violenta exclusão.
As engenharias mercantis da produção da miséria em massa produzem a morte física: pela fome ou subnutrição, pelas epidemias evitáveis ou pela vida subtraída pelo cuidado sanitário precário, pelas genocídios de jovens pobres nas periferias. Ao final dos anos noventa, pela primeira vez na história brasileira no século XX, a esperança média de vida dos brasileiros parou de crescer. Mas a injustiça – legitimada ou cinicamente absorvida – produz um aleijão na alma do cidadão: as nossas crianças e jovens – mesmo as mais protegidas – não ficam imunes à legião dos pobres nas ruas mais suntuosas, pessoas a cata dos restos nos lixos dos bairros mais ricos, o pobre suspeito de ser criminoso e o rico absolvido de todos os crimes.
Não se trata de dividir o mundo pequeno dos privilegiados ou socializar os privilégios para todos. “A felicidade ou é compartilhada ou não vigora”, escreveu o presidente Lula como dedicatória ao livro de sua biografia presenteado a Dom Luciano Mendes, como este mesmo próprio revelou a uma platéia de ouvintes comovidos. O que se trata exatamente é a meta de por fim aos privilégios: expandir o espaço da vida de cada um pela expansão da riqueza da vida social, prosperar o nosso quinhão de afetos pela amizade e amorosidade da vida em comum, modular em aquarela as cores de nossa vida subjetiva ao sentimento do mundo, como versou o poeta maior.
Desterrados na própria terra?
Talvez a mais fina leitura do livro “Raízes do Brasil”, do mestre Sérgio Buarque de Holanda, revelou que em sua primeira edição ele escrevia na abertura uma contradição: ao modo de Gilberto Freyre, ele trazia o reconhecimento de que havia se enraizado aqui uma civilização nos trópicos ; mas, ao mesmo tempo, ao modo de Euclides da Cunha, éramos desterrados na própria terra. Nas edições seguintes, esta tensão criativa teria se apagado, ficando soberana a noção do desterro. O fino leitor, porém, preferia a tensão, ao modo da obra que cresce na sua abertura de sentidos.
O fato é que esta tensão veio hoje ao centro da democracia brasileira. Continuaremos a ser desterrados na nossa própria terra, como uma nação que não se fez, ou construiremos aqui a mais bela e generosa civilização democrática e interracial dos trópicos, na utopia mesma de Darcy Ribeiro?
O tema do desterro ou do exílio estrutura a cultura brasileira desde o século XIX, quando ela começou a procurar nossa identidade, entre a cópia do centro ou a busca da originalidade. Origem, identidade e destino, amarrados na mesma imaginação: de onde viemos, o que somos e para onde vamos ? Na clareira da dúvida, emergiu o tema do sertão: dentro de nós, ao redor de nós, presença do mal ou ausência do bem, o lugar onde vige a violência na ausência da lei, nossas veredas. Como numa comédia farsesca, o “bem” e o “mal” voltaram hoje a terçar armas em busca da consciência dos brasileiros. Mas nem Hermógenes (o princípio do mal no sertão) nem o fero belo Diadorim (o princípio do bem absoluto no sertão) : mas Riobaldo e sua fala sábia, humanizando o imperfeito do vivido, repropondo para nós o caminho do livre e do justo.
No desterro, os ricos abandonam a noção de nação e migram para seus oligárquicos céus do cosmopolitanismo: os de tradição, para a Europa, os “novos ricos” para Miami, erguem fossos e pontes levadiças em seus condomínios de luxo. Os pobres, ah! Os pobres, estes migram para os infernos: para o anonimato do desemprego ou os sem nome do emprego precário, para as drogas e seus circuitos, para o sobre humano esforço pela sobrevida de cada dia.
E as classes médias o que fazem: elas vão ao limbo, sem identidade de Nação, sem futuro para os filhos, com a universidade cada vez mais restrita ou mais cara e os planos de saúde que faltam na hora mais crítica, com a humilhação de ser brasileiro, fugindo da bala perdida e evitando as zonas do “no man´s land” das cidades perigosas.
No governo Lula, o sertão não virou mar mas recomeçamos a construção interrompida da Nação. A nação democrática e republicana é, por sua própria natureza, a identidade e futuro das classes médias brasileiras. Vamos retornar ao limbo?
Estado do Bem-Estar Social
Na hora mais grave de sua história, os ingleses, na linguagem de seus liberais cívicos e trabalhistas, cunharam o lema do “Estado do Bem-Estar Social”. Este grito de civilização contrastava com o outro, da barbárie, vindo da Alemanha de Hitler, o Estado da guerra, da máquina de guerra nazista. “Sangue, suor e lágrimas”, os ingleses uniram a Nação e resistiram. Hoje, decerto, não há nenhum Hitler às portas do Brasil, mas quem ousaria negar que a barbárie da violência social ainda ronda o nosso cotidiano e, pode, se a linha vitoriosa nestas eleições for neoliberal, voltar a crescer?
Coube a Maria Lúcia Werneck Vianna falar, pela primeira vez entre nós, ainda no final dos anos oitenta, da americanização perversa de nossa vida social. “Escolas para ricos” segregadas de “escolas para pobres”; “saúde para ricos” e “saúde para pobres”; previdência privada e imprevidência para todos. Mas como dizia o Relatório Beveridge, fundador do sistema de Bem-Estar inglês, uma medicina só para pobres será sempre uma pobre medicina. No final dos anos noventa, já se falava entre nós das dinâmicas de apartação social, isto é, estávamos reproduzindo aqui no Brasil o sistema do apartheid vigente na África do Sul, só que com o estigma social da riqueza e da pobreza.
O Estado do Bem-Estar é, por natureza, o lugar do interesse público, do encontro necessário e possível entre trabalhadores e classes médias, entre os direitos do trabalho e os direitos da mulher, da educação pública e do SUS pleno, do emprego garantido e da previdência firmada, da economia do setor público e dos avanços da democracia.
Em um regime do Bem-Estar, as classes médias podem realizar, de modo universalista, seus interesses: a inclusão de miseráveis e pobres, que no Brasil quase equivalem a uma França inteira, gera uma plataforma de milhões de novos empregos para engenheiros, médicos, dentistas, psicólogos, advogados, comunicadores e economistas. A expansão das funções públicas do Estado gera uma profusão de concursos públicos. A recuperação dos bancos públicos produz uma pressão de baixa nos juros e o crédito para a compra de casas torna-se acessível; a retomada dos investimentos em ciência e tecnologia alenta as carreiras universitárias. Crescem as receitas do Estado, diminuem as dívidas públicas e as políticas sociais podem almejar metas de universalização. A violência social diminui claramente e os jovens de periferia entram, com passos firmes, no circuito da civilização, das artes e da educação, com suas próprias identidades. A reforma agrária e a agricultura familiar expandem e barateiam a produção de alimentos. A força da economia do setor público permite planejar e evitar a predação da natureza que nos ameaça.
Com uma dinâmica de Bem-Estar, cria-se uma infra-estrutura econômica propícia à retomada da moralidade pública, de desprivatização do Estado e de suas cadeias alentadoras de privilégios ou de rentismos. O interesse público passa se a base de uma vida política pública virtuosa.
O governo Lula deve ser reconhecido como o que mais fez até hoje na luta contra a corrupção: através do fortalecimento da Controladoria Geral da União (CGU), da multiplicação das operações da Polícia Federal, da criação de Corregedorias em todos os ministérios, da auditagem das verbas federais que vão para os municípios e estados, da garantia da independência do Ministério Público Federal, da punição aos corruptores, da transparência dos gastos públicos e do envio ao Congresso Nacional de novas leis de punição exemplares aos corruptos. Mas é evidente que, por seu caráter histórico e sistêmico, a corrupção exige medidas mais profundas, como a Reforma Política, e uma postura mais intransigente.
A voz da república
Com os ricos e grandes capitalistas e banqueiros e agro-business alinhados com Serra e pobres, sindicatos e sem-terra mais alinhados com Dilma, o segundo turno destas eleições presidenciais de 2010 será decidido pelo voto das classes médias.
Serra oferece a elas uma apologia virulenta de um sentimento contra a esquerda, contra as morais emancipatórias da mulher e um ressentimento de quem vê seus privilégios ameaçados, ao mesmo tempo, que satura os seus programas de televisão de pobres, tentando fugir à identidade de ser o candidato dos “bem... ricos”, como diz o refrão da campanha de Dilma.
O argumento moral que solda liberdade e justiça, o sentimento da identidade e orgulho de ser brasileiro e o rico mundo dos interesses públicos do Estado Bem-Estar Social constituem três grandes argumentos para o seu voto em Dilma.
Se Vinícius de Moraes estivesse presente entre nós, ele apenas aconselharia as classes médias brasileiras a ouvir a bela canção de Orfeu, que ele figurou como um menino negro no alto de uma favela brasileira.
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Debate RedeTV: Serra não cansa de mentir?
Reproduzo artigo de Alfredo Bessow, publicado no blog Passe Livre:
1º bloco
Logo de cara, o Serra atacou com duas mentiras. O FAT não é dele. Depois, veio o anúncio dos cursos do FAT – que aqui no DF enriqueceram pessoas como o Vigão. Os cursos do FAT nunca capacitaram ninguém. Sempre foram desviados recursos. Fez bem o Lula em reduzir os recursos destinados a este verdadeiro roubódromo. Se o Serra não fosse tão imbecil ele se daria conta do quanto é mentiroso.
Oba: os ladrões que se deram bem com o FAT estão todos com o Serra. O Serra volta. A roubalheira volta.
Privatização: o Serra é muito tolinho…
Avaliação: Serra não sabe a porcaria que eram os cursos de capacitação do FAT. Se soubesse, ficava calado.
2º bloco
Dilma segue buscando o rim e o fígado dele: nada dele responder na questão da privatização. Em lugar de responder, continua fugindo. E lá foi a marca: Petrobrax.
Ué.. quer dizer que para o Serra ter um celular é mais importante do que todas as políticas de inclusão social implantadas pelo governo Lula. Este Serra é de uma das coisas mais ignóbeis que já vivenciei em termos de política nacional. Eu fico pensando como alguém que se pensa ‘inteligente’ é capaz de falar tanta asneira.
Em 16 anos em SP, os tucanos criaram 300 clínicas para dependentes. Para mim, o ponto alto deste bloco: o Serra faz pouco para poucos; nós do governo Lula fazemos muito, para muitos.
Será que o Serra pensa que o povo do Brasil não conhece bem a história da Cracolândia. O verdadeiro cartão de visita do governo paulista é a Cracolândia! E segue o Serra a fugir das privatizações. E lá está o Serra bem carimbado. Bingo Dilma: Cracolândia!
Ah, meu amigo Serra: e vais recolocar as empresas de eletricidade no rol das privatizáveis ou não? Ou vais fazer de novo um novo apagão?
Eu estou aqui pensando: o Serra realmente sabe do que está falando? Porque ele vai de um assunto para outro e só vai apanhando, numa orelha, depois naquela sua cara de boi lambido…
Resumo do bloco: Dilma fustiga o Serra, que apenas é trololó. Putz: 16 anos no comando de SP e nada foi feito. Este é o modo tucano de administrar… Ainda bem que o Serra, depois desta eleição, volta para a latrina…
3º bloco
O que fico pensando, imaginando e questionando: será que vou ter estômago para escutar/acompanhar mais um bloco. Por falar nisso: o Roberto Freire é de um conselho de administração do governo Serra…
Vamos lá… respirar fundo…
Mais uma sessão com show da Dilma e o trololó do Serra. Antes que volte o debate: o que vale mais: um celular pré-pago ou ascensão social? Ah… e o celular pré-pago do Brasil é até 9 vezes mais caro do que em outros países. Mesmo em fase de desenvolvimento…
Voltando…
Paulo Preto – e quem doa para Caixa 2 reclama, cara pálida?
Que coisa micha… as duas perguntaram a mesma coisa… Coleguinhas.. burrinhas… O Serra querendo posar de indignado por conta do apelido de seu melhor amigo ladrão. Ora… Paulo Preto deixou de ser acintoso, faz parte do nome dele.
4º bloco
Questiono-me: Ou muito me engano ou o Serra tá se esvaindo pelo ralo… Não tem consistência para nada. É enojante naquele seu sotaque… naquele seu jeito de débil mental posando de inteligente. Cadê o diploma dele? Como ele fugiu do Chile para os EUA casado com uma Allende?
A Dilma, para meu gosto, está sendo cruel demais para com o Serra. Ela desmonta cada um dos argmentos dele, cada uma das basófias serristas com uma tranquilidade que chega a ser irritante.
O bloco chegou ao fim. Serra não consegue funcionar. Ele, o experiente e abnegado, fissurado em ser presidente, não consegue sair das cordas. Insiste num trololó sem cabimento.
5º bloco
Vamos lá. Último bloco. A fala da Dilma é cerebral.
Uma boa notícia: no governo dela, professor não vai ser tratado com cassetete.
Família pobre? E a filha maravilhosa comprou uma mansão com seu salárinho?
Avaliação final
Verdade, honestidade… O Serra delira… a gente percebe que ele mente, mente e depois torna a mentir. De modo sistemático, continuado e reiterado.
Ele quer paz disseminando o ódio? Massacrando os movimentos sociais. Valorizar o aluno e a educação com mentiras?
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1º bloco
Logo de cara, o Serra atacou com duas mentiras. O FAT não é dele. Depois, veio o anúncio dos cursos do FAT – que aqui no DF enriqueceram pessoas como o Vigão. Os cursos do FAT nunca capacitaram ninguém. Sempre foram desviados recursos. Fez bem o Lula em reduzir os recursos destinados a este verdadeiro roubódromo. Se o Serra não fosse tão imbecil ele se daria conta do quanto é mentiroso.
Oba: os ladrões que se deram bem com o FAT estão todos com o Serra. O Serra volta. A roubalheira volta.
Privatização: o Serra é muito tolinho…
Avaliação: Serra não sabe a porcaria que eram os cursos de capacitação do FAT. Se soubesse, ficava calado.
2º bloco
Dilma segue buscando o rim e o fígado dele: nada dele responder na questão da privatização. Em lugar de responder, continua fugindo. E lá foi a marca: Petrobrax.
Ué.. quer dizer que para o Serra ter um celular é mais importante do que todas as políticas de inclusão social implantadas pelo governo Lula. Este Serra é de uma das coisas mais ignóbeis que já vivenciei em termos de política nacional. Eu fico pensando como alguém que se pensa ‘inteligente’ é capaz de falar tanta asneira.
Em 16 anos em SP, os tucanos criaram 300 clínicas para dependentes. Para mim, o ponto alto deste bloco: o Serra faz pouco para poucos; nós do governo Lula fazemos muito, para muitos.
Será que o Serra pensa que o povo do Brasil não conhece bem a história da Cracolândia. O verdadeiro cartão de visita do governo paulista é a Cracolândia! E segue o Serra a fugir das privatizações. E lá está o Serra bem carimbado. Bingo Dilma: Cracolândia!
Ah, meu amigo Serra: e vais recolocar as empresas de eletricidade no rol das privatizáveis ou não? Ou vais fazer de novo um novo apagão?
Eu estou aqui pensando: o Serra realmente sabe do que está falando? Porque ele vai de um assunto para outro e só vai apanhando, numa orelha, depois naquela sua cara de boi lambido…
Resumo do bloco: Dilma fustiga o Serra, que apenas é trololó. Putz: 16 anos no comando de SP e nada foi feito. Este é o modo tucano de administrar… Ainda bem que o Serra, depois desta eleição, volta para a latrina…
3º bloco
O que fico pensando, imaginando e questionando: será que vou ter estômago para escutar/acompanhar mais um bloco. Por falar nisso: o Roberto Freire é de um conselho de administração do governo Serra…
Vamos lá… respirar fundo…
Mais uma sessão com show da Dilma e o trololó do Serra. Antes que volte o debate: o que vale mais: um celular pré-pago ou ascensão social? Ah… e o celular pré-pago do Brasil é até 9 vezes mais caro do que em outros países. Mesmo em fase de desenvolvimento…
Voltando…
Paulo Preto – e quem doa para Caixa 2 reclama, cara pálida?
Que coisa micha… as duas perguntaram a mesma coisa… Coleguinhas.. burrinhas… O Serra querendo posar de indignado por conta do apelido de seu melhor amigo ladrão. Ora… Paulo Preto deixou de ser acintoso, faz parte do nome dele.
4º bloco
Questiono-me: Ou muito me engano ou o Serra tá se esvaindo pelo ralo… Não tem consistência para nada. É enojante naquele seu sotaque… naquele seu jeito de débil mental posando de inteligente. Cadê o diploma dele? Como ele fugiu do Chile para os EUA casado com uma Allende?
A Dilma, para meu gosto, está sendo cruel demais para com o Serra. Ela desmonta cada um dos argmentos dele, cada uma das basófias serristas com uma tranquilidade que chega a ser irritante.
O bloco chegou ao fim. Serra não consegue funcionar. Ele, o experiente e abnegado, fissurado em ser presidente, não consegue sair das cordas. Insiste num trololó sem cabimento.
5º bloco
Vamos lá. Último bloco. A fala da Dilma é cerebral.
Uma boa notícia: no governo dela, professor não vai ser tratado com cassetete.
Família pobre? E a filha maravilhosa comprou uma mansão com seu salárinho?
Avaliação final
Verdade, honestidade… O Serra delira… a gente percebe que ele mente, mente e depois torna a mentir. De modo sistemático, continuado e reiterado.
Ele quer paz disseminando o ódio? Massacrando os movimentos sociais. Valorizar o aluno e a educação com mentiras?
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Debate morno na RedeTV, alívio no PT
Reproduzo artigo de Rodrigo Vianna, publicado no blog Escrevinhador:
O debate na “RedeTV”, na noite desse domingo, foi talvez o mais morno desde o início da campanha eleitoral. Nada parecido com o que se viu na “Band” semana passada. Dilma e Serra pareciam cansados, esgotados depois de tantas viagens pelo país, e depois de tanta tensão desde o primeiro turno.
Avaliação feita pela “RedeTV” com um grupo de 27 indecisos mostrou que Serra foi avaliado ligeiramente melhor do que Dilma. José Roberto de Toledo, analista responsável por organizar essa avaliação, fez questão de ressaltar que era um grupo muito limitado, e restrito à cidade de São Paulo. Segundo ele, numa escala de 0 a 100, nenhum dos dois candidatos teve avaliação abaixo de 40 nem acima de 75 pontos. Ou seja, “tiveram desempenho medíocre”, segundo ele.
De minha parte, achei que o melhor trecho foi quando jornalistas puderam perguntar – fórmula parecida com a adotada pela Record no primeiro turno. Foram perguntas duras, diretas, bem formuladas. Para Dilma, sobre Erenice. Para Serra, sobre Paulo Preto. Foi o pior momento para Serra no debate, avaliou Toledo.
Diria que isso ocorre porque Serra não está acostumado a ser apertado pelos jornalistas, nem a ser confrontado. A imprensa amiga – especialmente em São Paulo – permite a Serra passar anos e anos sem ser incomodado. Dilma, apesar de menos experiente nesses embates, está mais acostumada a apanhar da imprensa.
O mais curioso foi a fórmula encontrada por Serra para explicar porque disse num dia que não conhecia Paulo Preto, e no dia seguinte saiu em defesa do ex-assessor (entre uma e outra declaração, lembremos, Paulo Preto deu uma entrevista fazendo ameaças veladas aos tucanos): “Eu disse que não conhecia Paulo Preto, porque eu o conhecia como Paulo Souza, aliás pra mim Paulo Preto é até um tratamento racista”.
Todos no PSDB chamam o ex-diretor da DERSA (estatal paulista que administra milhões de reais na construção de rodovias) de Paulo Preto. E Serra não sabia. Curioso. Pelo jeito, não colou com o eleitorado.
Do lado de Dilma, achei que ela passou muito tempo (no início do debate) martelando a questão das privatizações – de forma um pouco confusa. Permitiu sempre que Serra desse os contra-ataques – acusando PT de não apoiar privatização da telefonia. É um assunto que incomoda muito Serra. Mas Dilma não conseguiu nocauteá-lo em nenhum momento.
Em suma, um debate que não trouxe pautas novas para a campanha (ao contrário do que Dilma conseguiu fazer na “Band”, quando trouxe a discussão sobre Paulo Preto), nem teve momentos constrangedores ou espetaculares a ponto de mudar o quadro. Para Dilma, isso basta a essa altura.
As informações que chegam do PT são de que pesquisas internas mostram a distância entre os dois um pouco maior do que no início da semana, chegando perto dos 10 pontos.
Informações que devem ser tomadas com reserva, naturalmente. Mas se a primeira semana do segundo turno foi de pânico entre os dilmistas, a segunda termina com decepção para os serristas: eles, que chegaram a falar em vitória lá por terça ou quarta (quando até trackings do PT mostraram diferença de apenas 5 pontos entre os dois), viram a diferença se alargar de novo.
Os tucanos parece que comemoraram cedo demais. Dilma lidera por uma margem que não chega a ser confortável, a ponto de permitir relaxamento para os petistas. O que talvez seja bom para eles, já que nessa eleição quem relaxa se dá mal.
Serra mostrou – no debate da “RedeTV” – que o embate cara-a-cara com Dilma (ao contrário do que diziam alguns pretensiosos tucanos) não lhe permite vitórias arrasadoras, a ponto de encurtar a diferença.
Resta a baixaria e o boato. Não tenham dúvidas, esse será o caminho. Os tucanos vão usar um movimento duplo, em pinça: denúncias nos jornais, para manter a classe média raivosa contra o PT; e boatos religiosos nas periferias e no Nordeste, incluindo até baixarias de ordem sexual (que, segundo alguns leitores, já começam a circular na forma de panfletos contra Dilma, distribuídos de casa em casa). É uma tentativa desesperada de reduzir a popularidade de Dilma entre os mais pobres – trunfo da candidatura petista.
Os marqueteiros e o comando da campanha petista (hum…) parecem confiante a ponto de não achar necessárias novas vacinas contra a boataria – no horário político. Tenho minhas dúvidas. E sei que mais gente na cúpula do PT (com quem falei hoje) também segue moderadamente preocupada.
Serão quinze dias quentes. A eleição segue indefinida – com leve favoritismo para Dilma.
Ao contrário do primeiro turno, quando achei que os 55% de Dilma (obtidos em agosto) eram enganosos, minha avaliação agora é que – apesar da distância mais curta – Dilma parece ter um eleitorado sólido. Dificilmente baixará de 52 milhões de votos (o que garante vitória). Serra só conseguirá mudar esse quadro se algo de muito grave (ou sórdido) acontecer. E se o PT não estiver preparado para contra-atacar (e, aparentemente, isso mudou).
Dilma enfrenta a maior máquina de propaganda conservadora no país, desde 1964. O susto no fim do primeiro turno colocou em alerta os militantes e a liderança lulista mais combativa: não se pode mesmo menosprezar as forças que estão do outro lado. Eles vão tentar de tudo, e ainda vão aprontar muito até o dia 31.
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O debate na “RedeTV”, na noite desse domingo, foi talvez o mais morno desde o início da campanha eleitoral. Nada parecido com o que se viu na “Band” semana passada. Dilma e Serra pareciam cansados, esgotados depois de tantas viagens pelo país, e depois de tanta tensão desde o primeiro turno.
Avaliação feita pela “RedeTV” com um grupo de 27 indecisos mostrou que Serra foi avaliado ligeiramente melhor do que Dilma. José Roberto de Toledo, analista responsável por organizar essa avaliação, fez questão de ressaltar que era um grupo muito limitado, e restrito à cidade de São Paulo. Segundo ele, numa escala de 0 a 100, nenhum dos dois candidatos teve avaliação abaixo de 40 nem acima de 75 pontos. Ou seja, “tiveram desempenho medíocre”, segundo ele.
De minha parte, achei que o melhor trecho foi quando jornalistas puderam perguntar – fórmula parecida com a adotada pela Record no primeiro turno. Foram perguntas duras, diretas, bem formuladas. Para Dilma, sobre Erenice. Para Serra, sobre Paulo Preto. Foi o pior momento para Serra no debate, avaliou Toledo.
Diria que isso ocorre porque Serra não está acostumado a ser apertado pelos jornalistas, nem a ser confrontado. A imprensa amiga – especialmente em São Paulo – permite a Serra passar anos e anos sem ser incomodado. Dilma, apesar de menos experiente nesses embates, está mais acostumada a apanhar da imprensa.
O mais curioso foi a fórmula encontrada por Serra para explicar porque disse num dia que não conhecia Paulo Preto, e no dia seguinte saiu em defesa do ex-assessor (entre uma e outra declaração, lembremos, Paulo Preto deu uma entrevista fazendo ameaças veladas aos tucanos): “Eu disse que não conhecia Paulo Preto, porque eu o conhecia como Paulo Souza, aliás pra mim Paulo Preto é até um tratamento racista”.
Todos no PSDB chamam o ex-diretor da DERSA (estatal paulista que administra milhões de reais na construção de rodovias) de Paulo Preto. E Serra não sabia. Curioso. Pelo jeito, não colou com o eleitorado.
Do lado de Dilma, achei que ela passou muito tempo (no início do debate) martelando a questão das privatizações – de forma um pouco confusa. Permitiu sempre que Serra desse os contra-ataques – acusando PT de não apoiar privatização da telefonia. É um assunto que incomoda muito Serra. Mas Dilma não conseguiu nocauteá-lo em nenhum momento.
Em suma, um debate que não trouxe pautas novas para a campanha (ao contrário do que Dilma conseguiu fazer na “Band”, quando trouxe a discussão sobre Paulo Preto), nem teve momentos constrangedores ou espetaculares a ponto de mudar o quadro. Para Dilma, isso basta a essa altura.
As informações que chegam do PT são de que pesquisas internas mostram a distância entre os dois um pouco maior do que no início da semana, chegando perto dos 10 pontos.
Informações que devem ser tomadas com reserva, naturalmente. Mas se a primeira semana do segundo turno foi de pânico entre os dilmistas, a segunda termina com decepção para os serristas: eles, que chegaram a falar em vitória lá por terça ou quarta (quando até trackings do PT mostraram diferença de apenas 5 pontos entre os dois), viram a diferença se alargar de novo.
Os tucanos parece que comemoraram cedo demais. Dilma lidera por uma margem que não chega a ser confortável, a ponto de permitir relaxamento para os petistas. O que talvez seja bom para eles, já que nessa eleição quem relaxa se dá mal.
Serra mostrou – no debate da “RedeTV” – que o embate cara-a-cara com Dilma (ao contrário do que diziam alguns pretensiosos tucanos) não lhe permite vitórias arrasadoras, a ponto de encurtar a diferença.
Resta a baixaria e o boato. Não tenham dúvidas, esse será o caminho. Os tucanos vão usar um movimento duplo, em pinça: denúncias nos jornais, para manter a classe média raivosa contra o PT; e boatos religiosos nas periferias e no Nordeste, incluindo até baixarias de ordem sexual (que, segundo alguns leitores, já começam a circular na forma de panfletos contra Dilma, distribuídos de casa em casa). É uma tentativa desesperada de reduzir a popularidade de Dilma entre os mais pobres – trunfo da candidatura petista.
Os marqueteiros e o comando da campanha petista (hum…) parecem confiante a ponto de não achar necessárias novas vacinas contra a boataria – no horário político. Tenho minhas dúvidas. E sei que mais gente na cúpula do PT (com quem falei hoje) também segue moderadamente preocupada.
Serão quinze dias quentes. A eleição segue indefinida – com leve favoritismo para Dilma.
Ao contrário do primeiro turno, quando achei que os 55% de Dilma (obtidos em agosto) eram enganosos, minha avaliação agora é que – apesar da distância mais curta – Dilma parece ter um eleitorado sólido. Dificilmente baixará de 52 milhões de votos (o que garante vitória). Serra só conseguirá mudar esse quadro se algo de muito grave (ou sórdido) acontecer. E se o PT não estiver preparado para contra-atacar (e, aparentemente, isso mudou).
Dilma enfrenta a maior máquina de propaganda conservadora no país, desde 1964. O susto no fim do primeiro turno colocou em alerta os militantes e a liderança lulista mais combativa: não se pode mesmo menosprezar as forças que estão do outro lado. Eles vão tentar de tudo, e ainda vão aprontar muito até o dia 31.
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Sem surpresas, debate favorece Dilma
Reproduzo análise de André Cintra, publicada no sítio Vermelho:
Quem esperava pelo “confronto duro” anunciado pela grande mídia se frustrou. De bloco a bloco, o segundo debate televisivo entre Dilma Rousseff e José Serra, neste segundo turno das eleições presidenciais, lembrou mais o poema de Mário de Andrade e, sem surpresas, foi “sempre um cauteloso pouco-a-pouco”.
Promovido pela Rede TV! e pelo jornal Folha de S.Paulo, na noite deste domingo (17), em Osasco (SP), o encontro acabou por beneficiar Dilma – sobretudo por ter acrescentado pouco à campanha. A candidata da coligação Para o Brasil Seguir Mudando não foi tão contundente como no debate anterior, na TV Bandeirantes, uma semana atrás – mas tampouco Serra brilhou.
Por insistência de Dilma, o tema que dominou o embate deste domingo foi o das privatizações. A candidata lembrou o legado privatista dos oito anos de governo FHC (1995-2002) e da gestão de Serra como governador de São Paulo (2007-2010). Quando, por exemplo, a estatal paulista Gás Brasiliano estava prestes a ser vendida para a Petrobras, Serra interveio para privilegiar concorrentes estrangeiras.
“Fala-se de um jeito. Agora, age-se de outro”, disse Dilma sobre um Serra que tentou encarnar a persona de defensor histórico da Petrobras, desde quando “a empresa era adolescente”. O tucano chegou a afirmar que “o governo Lula a Dilma fizeram mais concessões a empresas privadas do que o Fernando Henrique”, mas Serra não justificou tamanho despautério. Teve de justificar, sim, a acusação de Dilma segundo a qual o governo FHC queria rebatizar a Petrobras “no intuito de agradar o mercado internacional para captar dinheiro”.
Serra variou os temas, ainda que suas perguntas partissem invariavelmente da falsa premissa de que o Brasil está abandonado pelo governo federal. Suas perguntas a Dilma questionaram a atuação do governo Lula em saúde, educação, segurança, infraestrutura e combate às drogas, entre outros temas. Nas respostas, réplicas e tréplicas foi que a tática serrista não se alterou. O presidenciável tucano, sob orientação do marqueteito Luiz Gonzales, formatou suas intervenções de olho na propaganda eleitoral – o que colaborou, e muito, para a monotonia do debate.
Calculando até demais certas palavras, Serra não se cansou de repetir slogans, mantras e promessas de sua campanha no rádio e na televisão. Soou como mais do mesmo – um saldo desfavorável para quem está atrás nas pesquisas de intenções de voto. Serra também reclamou que Dilma “só fala de São Paulo”, como se fosse “candidata a governadora”.
Foi a forma de o tucano dizer que evitaria discutir a aprovação automática, a Cracolândia, o PCC e outros cânceres alastrados nos sucessivos governos do PSDB no estado. “O esporte preferido do PT é falar mal de São Paulo”, dissimulou o Serra. “Não, eu tenho admiração pelo povo paulista, que é um povo trabalhador”, respondeu Dilma. “Não confunda a inteligência do povo paulista com as falhas do seu governo.”
Projetos distintos
Já Dilma, com dados a mão, empenhou-se em demarcar diferenças entre os governos de Lula e de FHC. Foi assim quando abordou assuntos mais específicos, como construção de escolas técnicas, investimentos em segurança pública (sobretudo na Polícia Federal) e tratamento a viciados em drogas.
Neste último ponto, coube uma ironia: ao recordar que a política de Serra para tratar usuários de crack atendia a, no máximo, 300 pessoas por vez, Dilma estimou que “vai levar um século” para o PSDB “resolver o problema”. E emendou: “A característica principal do candidato Serra é fazer programa piloto – poucos para poucos”.
Com as perguntas de jornalista para candidato, Serra teve seu momento mais constrangedor no debate. No mesmo bloco em que Dilma manifestou sua “indignação” com as contratações de parentes efetuadas pela ex-ministra Erenice Guerra na Casa Civil, o candidato do PSDB à Presidência teve de encarar o fantasma do engenheiro Paulo Vieira Souza, ex-diretor de engenharia da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) em São Paulo. Conhecido como Paulo Preto, Vieira é acusado de ter sumido com R$ 4 milhões de dinheiro arrecadado para a campanha presidencial tucana.
“Seu partido critica o governo Lula por não saber do mensalão. Agora surge no noticiário um personagem chamado Paulo Preto. O senhor disse que não conhecia ele e depois disse que o conhecia”, recordou a jornalista Renata Lo Prete, da Folha. “Hoje foi publicado que o senhor empregou uma filha dele em seu governo. Candidato, o senhor sabia disso?”
Serra, engasgado, nada falou sobre a contratação da filha e negou a acusação de no caixa 2 da campanha. O candidato, porém, admitiu não ter controle sobre seus comandados: “Eu não soube (de reclamações sobre Paulo Preto), nunca vieram reclamar”, declarou. Denúncias contra o ex-diretor da Dersa, no entanto, são públicas e notórias desde maio, com as revelações da Operação Castelo de Areia, deflagrada pela Polícia Federal.
Nas considerações finais, Serra, autoproclamando-se “um servidor público”, enalteceu suas origens pobres e a “escola pública”, entre outros clichês. Dilma aproveitou para enfatizar o principal trunfo de sua candidatura. “Tenho a honra de ser apoiada e estar no mesmo do projeto que o maior presidente que este país já teve, que foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, finalizou a candidata.
Segundo dados preliminares do Ibope, o debate na Rede TV! chegou a registrar sete pontos de audiência na Grande São Paulo – ou cerca de 392 mil domicílios. Mas a audiência média foi de modestos 4,3 pontos. Até a realização do segundo turno, haverá pelo menos mais um tête-à-tête entre os candidatos. Será no dia 29 deste mês, a dois dias da eleição, na sempre suspeita TV Globo.
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Quem esperava pelo “confronto duro” anunciado pela grande mídia se frustrou. De bloco a bloco, o segundo debate televisivo entre Dilma Rousseff e José Serra, neste segundo turno das eleições presidenciais, lembrou mais o poema de Mário de Andrade e, sem surpresas, foi “sempre um cauteloso pouco-a-pouco”.
Promovido pela Rede TV! e pelo jornal Folha de S.Paulo, na noite deste domingo (17), em Osasco (SP), o encontro acabou por beneficiar Dilma – sobretudo por ter acrescentado pouco à campanha. A candidata da coligação Para o Brasil Seguir Mudando não foi tão contundente como no debate anterior, na TV Bandeirantes, uma semana atrás – mas tampouco Serra brilhou.
Por insistência de Dilma, o tema que dominou o embate deste domingo foi o das privatizações. A candidata lembrou o legado privatista dos oito anos de governo FHC (1995-2002) e da gestão de Serra como governador de São Paulo (2007-2010). Quando, por exemplo, a estatal paulista Gás Brasiliano estava prestes a ser vendida para a Petrobras, Serra interveio para privilegiar concorrentes estrangeiras.
“Fala-se de um jeito. Agora, age-se de outro”, disse Dilma sobre um Serra que tentou encarnar a persona de defensor histórico da Petrobras, desde quando “a empresa era adolescente”. O tucano chegou a afirmar que “o governo Lula a Dilma fizeram mais concessões a empresas privadas do que o Fernando Henrique”, mas Serra não justificou tamanho despautério. Teve de justificar, sim, a acusação de Dilma segundo a qual o governo FHC queria rebatizar a Petrobras “no intuito de agradar o mercado internacional para captar dinheiro”.
Serra variou os temas, ainda que suas perguntas partissem invariavelmente da falsa premissa de que o Brasil está abandonado pelo governo federal. Suas perguntas a Dilma questionaram a atuação do governo Lula em saúde, educação, segurança, infraestrutura e combate às drogas, entre outros temas. Nas respostas, réplicas e tréplicas foi que a tática serrista não se alterou. O presidenciável tucano, sob orientação do marqueteito Luiz Gonzales, formatou suas intervenções de olho na propaganda eleitoral – o que colaborou, e muito, para a monotonia do debate.
Calculando até demais certas palavras, Serra não se cansou de repetir slogans, mantras e promessas de sua campanha no rádio e na televisão. Soou como mais do mesmo – um saldo desfavorável para quem está atrás nas pesquisas de intenções de voto. Serra também reclamou que Dilma “só fala de São Paulo”, como se fosse “candidata a governadora”.
Foi a forma de o tucano dizer que evitaria discutir a aprovação automática, a Cracolândia, o PCC e outros cânceres alastrados nos sucessivos governos do PSDB no estado. “O esporte preferido do PT é falar mal de São Paulo”, dissimulou o Serra. “Não, eu tenho admiração pelo povo paulista, que é um povo trabalhador”, respondeu Dilma. “Não confunda a inteligência do povo paulista com as falhas do seu governo.”
Projetos distintos
Já Dilma, com dados a mão, empenhou-se em demarcar diferenças entre os governos de Lula e de FHC. Foi assim quando abordou assuntos mais específicos, como construção de escolas técnicas, investimentos em segurança pública (sobretudo na Polícia Federal) e tratamento a viciados em drogas.
Neste último ponto, coube uma ironia: ao recordar que a política de Serra para tratar usuários de crack atendia a, no máximo, 300 pessoas por vez, Dilma estimou que “vai levar um século” para o PSDB “resolver o problema”. E emendou: “A característica principal do candidato Serra é fazer programa piloto – poucos para poucos”.
Com as perguntas de jornalista para candidato, Serra teve seu momento mais constrangedor no debate. No mesmo bloco em que Dilma manifestou sua “indignação” com as contratações de parentes efetuadas pela ex-ministra Erenice Guerra na Casa Civil, o candidato do PSDB à Presidência teve de encarar o fantasma do engenheiro Paulo Vieira Souza, ex-diretor de engenharia da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A) em São Paulo. Conhecido como Paulo Preto, Vieira é acusado de ter sumido com R$ 4 milhões de dinheiro arrecadado para a campanha presidencial tucana.
“Seu partido critica o governo Lula por não saber do mensalão. Agora surge no noticiário um personagem chamado Paulo Preto. O senhor disse que não conhecia ele e depois disse que o conhecia”, recordou a jornalista Renata Lo Prete, da Folha. “Hoje foi publicado que o senhor empregou uma filha dele em seu governo. Candidato, o senhor sabia disso?”
Serra, engasgado, nada falou sobre a contratação da filha e negou a acusação de no caixa 2 da campanha. O candidato, porém, admitiu não ter controle sobre seus comandados: “Eu não soube (de reclamações sobre Paulo Preto), nunca vieram reclamar”, declarou. Denúncias contra o ex-diretor da Dersa, no entanto, são públicas e notórias desde maio, com as revelações da Operação Castelo de Areia, deflagrada pela Polícia Federal.
Nas considerações finais, Serra, autoproclamando-se “um servidor público”, enalteceu suas origens pobres e a “escola pública”, entre outros clichês. Dilma aproveitou para enfatizar o principal trunfo de sua candidatura. “Tenho a honra de ser apoiada e estar no mesmo do projeto que o maior presidente que este país já teve, que foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, finalizou a candidata.
Segundo dados preliminares do Ibope, o debate na Rede TV! chegou a registrar sete pontos de audiência na Grande São Paulo – ou cerca de 392 mil domicílios. Mas a audiência média foi de modestos 4,3 pontos. Até a realização do segundo turno, haverá pelo menos mais um tête-à-tête entre os candidatos. Será no dia 29 deste mês, a dois dias da eleição, na sempre suspeita TV Globo.
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domingo, 17 de outubro de 2010
Privatizações: um tema que incomoda Serra
Reproduzo artigo de Marco Aurélio Garcia, publicado na Folha de S.Paulo:
No primeiro debate televisivo do segundo turno desta campanha eleitoral, José Serra mostrou-se incomodado quando o tema das privatizações foi colocado por Dilma Rousseff. Serra quis dar ao debate da questão um significado eleitoreiro, talvez pensando que seja mais um "trololó" da esquerda, como gosta tanto de dizer.
Não é assim. Quando a sociedade brasileira é convocada para decidir os destinos do país nos próximos anos, nada mais natural que o papel do Estado em nosso projeto nacional de desenvolvimento seja devidamente debatido.
A questão das privatizações emergiu no governo Collor de Mello, dormitou no interregno Itamar Franco e ganhou força durante o período FHC.
Correspondeu a período marcado não só pela "débâcle" dos regimes comunistas europeus e pela deriva social-democrata como pelo aparente êxito da proposta neoliberal que vicejava na Inglaterra de Thatcher e no Chile de Pinochet.
As teses sobre a diminuição do papel do Estado - quando não da necessidade do Estado mínimo - que acabaram por bater, ainda que tardiamente, nas costas brasileiras refletiam um otimismo desenfreado sobre o papel dos mercados na regulação econômica e financeira. Elas espelhavam também o grande fascínio exercido pela "globalização" produtiva, mas sobretudo financeira, em curso.
Ao considerar, de certa forma, irrelevantes a produção e os mercados nacionais, elas acabavam por minimizar o papel desempenhado pelos Estados nacionais.
Os governantes teriam de ser apenas gerentes de políticas mundialmente acordadas pelos grandes centros econômicos. Ficariam relegados a replicar orientações macroeconômicas de fora, que viabilizassem novo desenho geoeconômico e, evidentemente, geopolítico.
FHC não hesitou em proclamar o advento de um "novo Renascimento" mundial, ainda que fosse obrigado a reconhecer que alguns milhões de brasileiros iriam ficar obrigatoriamente fora deste suposto ciclo de prosperidade.
Complementando o ajuste que aqui e lá fora foi praticado, trataram de liberar o Estado de pesados fardos - as estatais -, que supostamente o impediam de cumprir suas funções. Ficava a dúvida sobre quais seriam essas "funções".
Não por acaso usou-se na propaganda a favor das privatizações a imagem de um elefante em um local fechado. As estatais não passavam de um trambolho que impedia o desenvolvimento do país.
No altar dessas crenças foram sacrificadas importantes empresas nacionais. Os cerca de US$ 100 bilhões conseguidos no processo de privatização comandado pelo ministro José Serra se esfumaram.
O país aumentou consideravelmente sua dívida interna e se tornou muito mais vulnerável internacionalmente, como ficou claro quando as crises mexicana, asiática e russa levaram o Brasil sucessivamente à beira do abismo.
Perversidade maior desse processo foi o uso de vultuosos recursos do BNDES para financiar as empresas estrangeiras que entraram nas privatizações. Resumindo a originalidade brasileira: privatizou-se com dinheiro do Estado brasileiro.
Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 2008, no início da grande crise econômica mundial, o presidente Lula afirmou ter chegado a "hora da política", a hora do Estado. Os meses que se seguiram deram a essa fala toda a sua significação.
Por ter barrado as privatizações, fortalecido as estatais e dado a elas um papel estratégico no desenvolvimento nacional, o Brasil pôde enfrentar, como poucos países, a tempestade financeira que se abateu sobre o mundo.
Os bancos públicos, a Petrobras e as estatais do setor elétrico foram fundamentais nesse processo.
Portanto, não estamos diante de um debate que opõe dinossauros a modernos. O que está em jogo é o interesse nacional.
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No primeiro debate televisivo do segundo turno desta campanha eleitoral, José Serra mostrou-se incomodado quando o tema das privatizações foi colocado por Dilma Rousseff. Serra quis dar ao debate da questão um significado eleitoreiro, talvez pensando que seja mais um "trololó" da esquerda, como gosta tanto de dizer.
Não é assim. Quando a sociedade brasileira é convocada para decidir os destinos do país nos próximos anos, nada mais natural que o papel do Estado em nosso projeto nacional de desenvolvimento seja devidamente debatido.
A questão das privatizações emergiu no governo Collor de Mello, dormitou no interregno Itamar Franco e ganhou força durante o período FHC.
Correspondeu a período marcado não só pela "débâcle" dos regimes comunistas europeus e pela deriva social-democrata como pelo aparente êxito da proposta neoliberal que vicejava na Inglaterra de Thatcher e no Chile de Pinochet.
As teses sobre a diminuição do papel do Estado - quando não da necessidade do Estado mínimo - que acabaram por bater, ainda que tardiamente, nas costas brasileiras refletiam um otimismo desenfreado sobre o papel dos mercados na regulação econômica e financeira. Elas espelhavam também o grande fascínio exercido pela "globalização" produtiva, mas sobretudo financeira, em curso.
Ao considerar, de certa forma, irrelevantes a produção e os mercados nacionais, elas acabavam por minimizar o papel desempenhado pelos Estados nacionais.
Os governantes teriam de ser apenas gerentes de políticas mundialmente acordadas pelos grandes centros econômicos. Ficariam relegados a replicar orientações macroeconômicas de fora, que viabilizassem novo desenho geoeconômico e, evidentemente, geopolítico.
FHC não hesitou em proclamar o advento de um "novo Renascimento" mundial, ainda que fosse obrigado a reconhecer que alguns milhões de brasileiros iriam ficar obrigatoriamente fora deste suposto ciclo de prosperidade.
Complementando o ajuste que aqui e lá fora foi praticado, trataram de liberar o Estado de pesados fardos - as estatais -, que supostamente o impediam de cumprir suas funções. Ficava a dúvida sobre quais seriam essas "funções".
Não por acaso usou-se na propaganda a favor das privatizações a imagem de um elefante em um local fechado. As estatais não passavam de um trambolho que impedia o desenvolvimento do país.
No altar dessas crenças foram sacrificadas importantes empresas nacionais. Os cerca de US$ 100 bilhões conseguidos no processo de privatização comandado pelo ministro José Serra se esfumaram.
O país aumentou consideravelmente sua dívida interna e se tornou muito mais vulnerável internacionalmente, como ficou claro quando as crises mexicana, asiática e russa levaram o Brasil sucessivamente à beira do abismo.
Perversidade maior desse processo foi o uso de vultuosos recursos do BNDES para financiar as empresas estrangeiras que entraram nas privatizações. Resumindo a originalidade brasileira: privatizou-se com dinheiro do Estado brasileiro.
Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 2008, no início da grande crise econômica mundial, o presidente Lula afirmou ter chegado a "hora da política", a hora do Estado. Os meses que se seguiram deram a essa fala toda a sua significação.
Por ter barrado as privatizações, fortalecido as estatais e dado a elas um papel estratégico no desenvolvimento nacional, o Brasil pôde enfrentar, como poucos países, a tempestade financeira que se abateu sobre o mundo.
Os bancos públicos, a Petrobras e as estatais do setor elétrico foram fundamentais nesse processo.
Portanto, não estamos diante de um debate que opõe dinossauros a modernos. O que está em jogo é o interesse nacional.
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ANJ e os riscos à liberdade de expressão
Reproduzo artigo de Carolina Ribeiro e Oona Castro, publicado no Observatório do Direito à Comunicação:
"A Associação Nacional de Jornais (ANJ) acompanha, investiga, denuncia, pede providências e se manifesta em defesa da liberdade de expressão." Retirada do site da ANJ, a frase abre o "Programa pela Liberdade de Imprensa" da associação. É curioso que a principal entidade representativa dos jornais comerciais brasileiros ainda não tenha denunciado alguns episódios recentes que colocaram em xeque a liberdade de expressão no país.
O manifesto pela liberdade de expressão da ANJ é repetido incisivamente por todos os donos de jornais brasileiros, em frequentes editoriais e até mesmo reportagens, alertando ainda para a ameaça de censura que ronda o país. Articulados no Brasil com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) e com a Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) eles se empenharam numa forte campanha para desqualificar as conferências setoriais de direitos humanos, cultura e comunicação, espaços de escuta à sociedade para formulação de políticas públicas.
Produziram um filme que alertava a população para o monstro da censura que poderia acordar. Na América Latina, estão associados a outras entidades empresariais do setor e combatem, com a Sociedade Interamericana de Prensa (SIP), toda e qualquer política dos governos que apoiam e buscam promover iniciativas de comunicação não comerciais, como a Ley dos Medios na Argentina.
Diante de tanta dedicação à defesa da liberdade de expressão, era de se esperar que a ANJ fosse a público contestar e denunciar um dos casos mais escancarados de silenciamento público da história recente do país. Maria Rita Kehl, que escrevia semanalmente para o Estadão, foi demitida depois de um "delito de opinião ". Teria incorrido em um erro ao pensar diferente do jornal, dizer o que pensa, expressar um ponto de vista por meio do artigo "Dois Pesos... ", publicado em 02 de outubro.
O jornal, que ocupa a vice-presidência da ANJ, alega que Kehl havia sido contratada para escrever sobre psicanálise, e não política. Como a diversidade temática já era característica de sua coluna, fica difícil acreditar que sua demissão não tenha sido um gesto desesperado para afastar uma formadora de opinião que divergia do jornal. Pior que isso, diante do desespero, calaram uma articulista lúcida e questionadora, restringindo a liberdade de expressão no veículo.
No encerramento do IV Workshop de Inovação da Aner, o representante da Editora Abril afirmou, categórico, que "os dois pilares da convivência democrática se baseiam, em nosso ramo, na energia da livre iniciativa e no vigor da liberdade de expressão". Mas como explicar a demissão, em maio, do jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, da empresa dos Civitá? Milanez publicou no Twitter comentários críticos a respeito da reportagem "A farsa da nação indígena", veiculada na revista Veja.
Outro caso recente foi protagonizado pela Folha de S.Paulo, que ocupa a presidência da ANJ. O jornal pediu a retirada do ar do blog Falha de S. Paulo, uma divertida sátira sobre a cobertura da publicação. Processou ainda os irmãos Bocchini, criadores do site, alegando uso indevido da marca, mas evidentemente buscando impedir o contraditório do discurso criado pela Folha. O episódio é agora explorado no novo blog Desculpe a Nossa Falha.
Ora, os guardiões da liberdade de imprensa atuando como censores? Alguma coisa está fora da ordem.
Democracia x monopólio da mídia
Os três episódios revelam que, na verdade, a pior ameaça à liberdade de expressão no Brasil vem justamente dos grandes veículos de comunicação. Ao invés de promover a pluralidade de opiniões de seus profissionais e da sociedade, em vez de respeitar a diversidade de informações que circulam na internet, essa mídia quer garantir o monopólio de sua versão dos fatos. Defende interesses próprios e de seus anunciantes e reproduz um país desigual e sem acesso à informação plural no Brasil.
Não há democracia sem pluralidade de visões, sem espaços para que toda diversidade possível se manifeste. Enquanto formos reféns das nove famílias que controlam os meios de comunicação continuaremos sendo silenciados por uma única versão do modo de experimentar a cultura, a religião, a política, a história, a vida. Os três lamentáveis episódios somente confirmam quem realmente põe em risco a liberdade de expressão no país.
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"A Associação Nacional de Jornais (ANJ) acompanha, investiga, denuncia, pede providências e se manifesta em defesa da liberdade de expressão." Retirada do site da ANJ, a frase abre o "Programa pela Liberdade de Imprensa" da associação. É curioso que a principal entidade representativa dos jornais comerciais brasileiros ainda não tenha denunciado alguns episódios recentes que colocaram em xeque a liberdade de expressão no país.
O manifesto pela liberdade de expressão da ANJ é repetido incisivamente por todos os donos de jornais brasileiros, em frequentes editoriais e até mesmo reportagens, alertando ainda para a ameaça de censura que ronda o país. Articulados no Brasil com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) e com a Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) eles se empenharam numa forte campanha para desqualificar as conferências setoriais de direitos humanos, cultura e comunicação, espaços de escuta à sociedade para formulação de políticas públicas.
Produziram um filme que alertava a população para o monstro da censura que poderia acordar. Na América Latina, estão associados a outras entidades empresariais do setor e combatem, com a Sociedade Interamericana de Prensa (SIP), toda e qualquer política dos governos que apoiam e buscam promover iniciativas de comunicação não comerciais, como a Ley dos Medios na Argentina.
Diante de tanta dedicação à defesa da liberdade de expressão, era de se esperar que a ANJ fosse a público contestar e denunciar um dos casos mais escancarados de silenciamento público da história recente do país. Maria Rita Kehl, que escrevia semanalmente para o Estadão, foi demitida depois de um "delito de opinião ". Teria incorrido em um erro ao pensar diferente do jornal, dizer o que pensa, expressar um ponto de vista por meio do artigo "Dois Pesos... ", publicado em 02 de outubro.
O jornal, que ocupa a vice-presidência da ANJ, alega que Kehl havia sido contratada para escrever sobre psicanálise, e não política. Como a diversidade temática já era característica de sua coluna, fica difícil acreditar que sua demissão não tenha sido um gesto desesperado para afastar uma formadora de opinião que divergia do jornal. Pior que isso, diante do desespero, calaram uma articulista lúcida e questionadora, restringindo a liberdade de expressão no veículo.
No encerramento do IV Workshop de Inovação da Aner, o representante da Editora Abril afirmou, categórico, que "os dois pilares da convivência democrática se baseiam, em nosso ramo, na energia da livre iniciativa e no vigor da liberdade de expressão". Mas como explicar a demissão, em maio, do jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, da empresa dos Civitá? Milanez publicou no Twitter comentários críticos a respeito da reportagem "A farsa da nação indígena", veiculada na revista Veja.
Outro caso recente foi protagonizado pela Folha de S.Paulo, que ocupa a presidência da ANJ. O jornal pediu a retirada do ar do blog Falha de S. Paulo, uma divertida sátira sobre a cobertura da publicação. Processou ainda os irmãos Bocchini, criadores do site, alegando uso indevido da marca, mas evidentemente buscando impedir o contraditório do discurso criado pela Folha. O episódio é agora explorado no novo blog Desculpe a Nossa Falha.
Ora, os guardiões da liberdade de imprensa atuando como censores? Alguma coisa está fora da ordem.
Democracia x monopólio da mídia
Os três episódios revelam que, na verdade, a pior ameaça à liberdade de expressão no Brasil vem justamente dos grandes veículos de comunicação. Ao invés de promover a pluralidade de opiniões de seus profissionais e da sociedade, em vez de respeitar a diversidade de informações que circulam na internet, essa mídia quer garantir o monopólio de sua versão dos fatos. Defende interesses próprios e de seus anunciantes e reproduz um país desigual e sem acesso à informação plural no Brasil.
Não há democracia sem pluralidade de visões, sem espaços para que toda diversidade possível se manifeste. Enquanto formos reféns das nove famílias que controlam os meios de comunicação continuaremos sendo silenciados por uma única versão do modo de experimentar a cultura, a religião, a política, a história, a vida. Os três lamentáveis episódios somente confirmam quem realmente põe em risco a liberdade de expressão no país.
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Comunidade no Orkut repudia Madureira
Reproduzo nota de repúdio ao "humorista" Marcelo Madureira, publicada no blog do Nassif e assinada por Dante Raglione, dono da comunidade no Orkut "Eu Amo Casseta e Planeta", que tem 30.006 membros:
Marcelo Madureira:
Eu, como dono da maior comunidade no Orkut de seu programa humorístico e como aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, repudio sua posição reacionária e ofensiva ao nosso Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva.
Entendo que, independentemente de sua posição política a favor de Dilma ou de Serra, os comentários de que Lula é burro, analfabeto, cachaceiro, ignorante e que o povo que vota nele é igual ao Presidente são inaceitáveis.
Gostaria de lembrá-lo de que Lula não teve as mesmas oportunidades de estudo que você e que eu, Marcelo, mas, mesmo assim, tornou-se Presidente, fazendo um governo considerado bom ou ótimo por 80% da população, sendo mais aprovado que o governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, sociólogo doutorado, poliglota e renomado.
Assim sendo, além de ofender o Presidente com seus comentários, você ofende a 80% do povo brasileiro e a mim. Por isso, estou promovendo um boicote ao Casseta e Planeta e ao programa Manhattan Connection até que você se retrate publicamente.
Sinceramente, Dante Raglione.
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Marcelo Madureira:
Eu, como dono da maior comunidade no Orkut de seu programa humorístico e como aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, repudio sua posição reacionária e ofensiva ao nosso Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva.
Entendo que, independentemente de sua posição política a favor de Dilma ou de Serra, os comentários de que Lula é burro, analfabeto, cachaceiro, ignorante e que o povo que vota nele é igual ao Presidente são inaceitáveis.
Gostaria de lembrá-lo de que Lula não teve as mesmas oportunidades de estudo que você e que eu, Marcelo, mas, mesmo assim, tornou-se Presidente, fazendo um governo considerado bom ou ótimo por 80% da população, sendo mais aprovado que o governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, sociólogo doutorado, poliglota e renomado.
Assim sendo, além de ofender o Presidente com seus comentários, você ofende a 80% do povo brasileiro e a mim. Por isso, estou promovendo um boicote ao Casseta e Planeta e ao programa Manhattan Connection até que você se retrate publicamente.
Sinceramente, Dante Raglione.
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"Educação: O Brasil no rumo certo"
Reproduzo o Manifesto de Reitores das Universidades Federais à Nação Brasileira:
Da pré-escola ao pós-doutoramento - ciclo completo educacional e acadêmico de formação das pessoas na busca pelo crescimento pessoal e profissional - consideramos que o Brasil encontrou o rumo nos últimos anos, graças a políticas, aumento orçamentário, ações e programas implementados pelo Governo Lula com a participação decisiva e direta de seus ministros, os quais reconhecemos, destacando o nome do Ministro Fernando Haddad.
Aliás, de forma mais ampla, assistimos a um crescimento muito significativo do País em vários domínios ocorreu a redução marcante da miséria e da pobreza; promoveu-se a inclusão social de milhões de brasileiros, com a geração de empregos e renda; cresceu a autoestima d a população, a confiança e a credibilidade internacional, num claro reconhecimento de que este é um País sério, solidário, de paz e de povo trabalhador.
Caminhamos a passos largos para alcançar patamares mais elevados no cenário global, como uma Nação livre e soberana que não se submete aos ditames e aos interesses de países ou organizações estrangeiras.
Este período do governo Lula ficará registrado na História como aquele em que mais se investiu em educação pública: foram criadas e consolidadas 14 novas universidades federais; institui-se a Universidade Aberta do Brasil; foram construídos mais de 100 campi universitários pelo interior do País; e ocorreu a criação e a ampliação, sem precedentes históricos, de Escolas Técnicas e Institutos Federais.
Através do PROUNI, possibilitou-se o acesso ao ensino superior a mais de 700.000 jovens. Com a implantação do REUNI, estamos recuperando nossas Universidades Federais, de norte a sul e de leste a oeste. No geral, estamos dobrando de tamanho nossas Instituições e criando milhares de novos cursos, com investimentos crescentes em infraestrutura e contratação, por concurso público, de profissionais qualificados. Essas políticas devem continuar para consolidar os programas atuais e, inclusive, serem ampliadas no plano Federal, exigindo-se que os Estados e Municípios também cumpram com as suas responsabilidades sociais e constitucionais, colocando a educação como uma prioridade central de seus governos.
Por tudo isso e na dimensão de nossas responsabilidades enquanto educadores, dirigentes universitários e cidadãos que desejam ver o País continuar avançando sem retrocessos, dirigimo-nos à sociedade brasileira para afirmar, com convicção, que estamos no rumo certo e que devemos continuar lutando e exigindo dos próximos governantes a continuidade das políticas e investimentos na educação em todos os níveis, assim como na ciência, na tecnologia e na inovação, de que o Brasil tanto precisa para se inserir, de uma forma ainda mais decisiva, neste mundo contemporâneo em constantes transformações.
Finalizamos este manifesto prestando o nosso reconhecimento e a nossa gratidão ao Presidente Lula por tudo que fez pelo País, em especial, no que se refere às políticas para educação, ciência e tecnologia. Ele também foi incansável em afirmar, sempre, que recurso aplicado em educação não é gasto, mas sim investimento no futuro do País. Foi exemplo, ainda, ao receber em reunião anual, durante os seus 8 anos de mandato, os Reitores das Universidades Federais para debater políticas e ações para o setor, encaminhando soluções concretas, inclusive, relativas à Autonomia Universitária.
- Alan Barbiero - Universidade Federal do Tocantins (UFT)
- José Weber Freire Macedo – Univ. Fed. do Vale do São Francisco (UNIVASF)
- Aloisio Teixeira - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
- Josivan Barbosa Menezes - Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFERSA)
- Amaro Henrique Pessoa Lins - Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
- Malvina Tânia Tuttman – Univ. Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
- Ana Dayse Rezende Dórea - Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
- Maria Beatriz Luce – Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)
- Antonio César Gonçalves Borges - Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
- Maria Lúcia Cavalli Neder - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
- Carlos Alexandre Netto - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
- Miguel Badenes P. Filho – Centro Fed. de Ed. Tec. (CEFET RJ)
- Carlos Eduardo Cantarelli – Univ. Tec. Federal do Paraná (UTFPR)
- Miriam da Costa Oliveira – Univ.. Fed. de Ciênc. da Saúde de POA (UFCSPA)
- Célia Maria da Silva Oliveira – Univ. Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
- Natalino Salgado Filho - Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
- Damião Duque de Farias - Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
- Paulo Gabriel S. Nacif – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
- Felipe .Martins Müller - Universidade Federal da Santa Maria (UFSM).
- Pedro Angelo A. Abreu – Univ. Fed. do Vale do Jequetinhonha e Mucuri (UFVJM)
- Hélgio Trindade – Univ. Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)
- Ricardo Motta Miranda – Univ. Fed. Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
- Hélio Waldman – Universidade Federal do ABC (UFABC)
- Roberto de Souza Salles - Universidade Federal Fluminense (UFF)
- Henrique Duque Chaves Filho – Univ. Federal de Juiz de Fora (UFJF)
- Romulo Soares Polari - Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
- Jesualdo Pereira Farias - Universidade Federal do Ceará - UFC
- Sueo Numazawa - Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
- João Carlos Brahm Cousin - Universidade Federal do Rio Grande – (FURG)
- Targino de Araújo Filho – Univ. Federal de São Carlos (UFSCar)
- José Carlos Tavares Carvalho - Universidade Federal do Amapá (
UNIFAP)
- Thompson F. Mariz - Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
- José Geraldo de Sousa Júnior - Universidade Federal de Brasília (UNB)
- Valmar C. de Andrade - Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
- José Seixas Lourenço – Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
- Virmondes Rodrigues Júnior – Univ. Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
- Walter Manna Albertoni - Universidade Federal de São Paulo ( UNIFESP)
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Da pré-escola ao pós-doutoramento - ciclo completo educacional e acadêmico de formação das pessoas na busca pelo crescimento pessoal e profissional - consideramos que o Brasil encontrou o rumo nos últimos anos, graças a políticas, aumento orçamentário, ações e programas implementados pelo Governo Lula com a participação decisiva e direta de seus ministros, os quais reconhecemos, destacando o nome do Ministro Fernando Haddad.
Aliás, de forma mais ampla, assistimos a um crescimento muito significativo do País em vários domínios ocorreu a redução marcante da miséria e da pobreza; promoveu-se a inclusão social de milhões de brasileiros, com a geração de empregos e renda; cresceu a autoestima d a população, a confiança e a credibilidade internacional, num claro reconhecimento de que este é um País sério, solidário, de paz e de povo trabalhador.
Caminhamos a passos largos para alcançar patamares mais elevados no cenário global, como uma Nação livre e soberana que não se submete aos ditames e aos interesses de países ou organizações estrangeiras.
Este período do governo Lula ficará registrado na História como aquele em que mais se investiu em educação pública: foram criadas e consolidadas 14 novas universidades federais; institui-se a Universidade Aberta do Brasil; foram construídos mais de 100 campi universitários pelo interior do País; e ocorreu a criação e a ampliação, sem precedentes históricos, de Escolas Técnicas e Institutos Federais.
Através do PROUNI, possibilitou-se o acesso ao ensino superior a mais de 700.000 jovens. Com a implantação do REUNI, estamos recuperando nossas Universidades Federais, de norte a sul e de leste a oeste. No geral, estamos dobrando de tamanho nossas Instituições e criando milhares de novos cursos, com investimentos crescentes em infraestrutura e contratação, por concurso público, de profissionais qualificados. Essas políticas devem continuar para consolidar os programas atuais e, inclusive, serem ampliadas no plano Federal, exigindo-se que os Estados e Municípios também cumpram com as suas responsabilidades sociais e constitucionais, colocando a educação como uma prioridade central de seus governos.
Por tudo isso e na dimensão de nossas responsabilidades enquanto educadores, dirigentes universitários e cidadãos que desejam ver o País continuar avançando sem retrocessos, dirigimo-nos à sociedade brasileira para afirmar, com convicção, que estamos no rumo certo e que devemos continuar lutando e exigindo dos próximos governantes a continuidade das políticas e investimentos na educação em todos os níveis, assim como na ciência, na tecnologia e na inovação, de que o Brasil tanto precisa para se inserir, de uma forma ainda mais decisiva, neste mundo contemporâneo em constantes transformações.
Finalizamos este manifesto prestando o nosso reconhecimento e a nossa gratidão ao Presidente Lula por tudo que fez pelo País, em especial, no que se refere às políticas para educação, ciência e tecnologia. Ele também foi incansável em afirmar, sempre, que recurso aplicado em educação não é gasto, mas sim investimento no futuro do País. Foi exemplo, ainda, ao receber em reunião anual, durante os seus 8 anos de mandato, os Reitores das Universidades Federais para debater políticas e ações para o setor, encaminhando soluções concretas, inclusive, relativas à Autonomia Universitária.
- Alan Barbiero - Universidade Federal do Tocantins (UFT)
- José Weber Freire Macedo – Univ. Fed. do Vale do São Francisco (UNIVASF)
- Aloisio Teixeira - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
- Josivan Barbosa Menezes - Universidade Federal Rural do Semi-árido (UFERSA)
- Amaro Henrique Pessoa Lins - Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
- Malvina Tânia Tuttman – Univ. Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
- Ana Dayse Rezende Dórea - Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
- Maria Beatriz Luce – Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)
- Antonio César Gonçalves Borges - Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
- Maria Lúcia Cavalli Neder - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
- Carlos Alexandre Netto - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
- Miguel Badenes P. Filho – Centro Fed. de Ed. Tec. (CEFET RJ)
- Carlos Eduardo Cantarelli – Univ. Tec. Federal do Paraná (UTFPR)
- Miriam da Costa Oliveira – Univ.. Fed. de Ciênc. da Saúde de POA (UFCSPA)
- Célia Maria da Silva Oliveira – Univ. Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
- Natalino Salgado Filho - Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
- Damião Duque de Farias - Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
- Paulo Gabriel S. Nacif – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
- Felipe .Martins Müller - Universidade Federal da Santa Maria (UFSM).
- Pedro Angelo A. Abreu – Univ. Fed. do Vale do Jequetinhonha e Mucuri (UFVJM)
- Hélgio Trindade – Univ. Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)
- Ricardo Motta Miranda – Univ. Fed. Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
- Hélio Waldman – Universidade Federal do ABC (UFABC)
- Roberto de Souza Salles - Universidade Federal Fluminense (UFF)
- Henrique Duque Chaves Filho – Univ. Federal de Juiz de Fora (UFJF)
- Romulo Soares Polari - Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
- Jesualdo Pereira Farias - Universidade Federal do Ceará - UFC
- Sueo Numazawa - Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
- João Carlos Brahm Cousin - Universidade Federal do Rio Grande – (FURG)
- Targino de Araújo Filho – Univ. Federal de São Carlos (UFSCar)
- José Carlos Tavares Carvalho - Universidade Federal do Amapá (
UNIFAP)
- Thompson F. Mariz - Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
- José Geraldo de Sousa Júnior - Universidade Federal de Brasília (UNB)
- Valmar C. de Andrade - Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)
- José Seixas Lourenço – Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA)
- Virmondes Rodrigues Júnior – Univ. Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
- Walter Manna Albertoni - Universidade Federal de São Paulo ( UNIFESP)
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O deus-mercado e as minas chilenas
Reproduzo artigo do jornalista Mario Augusto Jakobskind:
E, finalmente, acabou o drama dos 33 mineiros chilenos, um acidente que poderia ter sido evitado se os legisladores tivessem aprovado normas mais severas de segurança nas minas. Mas aí os defensores do mercado, entre os quais o atual presidente Sebastián Piñera, que aproveitou o show midiático que representou o resgate dos mineiros, não quis, por achar que seria prejudicial ao mercado.
Mas poucas vozes lembraram o fato mencionado. Um dos que não esqueceu foi o escritor chileno Luis Sepúlveda. Segundo ele, se tivesse sido aprovado pelo Parlamento um código de trabalho com regras mínimas de segurança, nada disso teria acontecido. Empresas como as responsáveis pela mina San José, onde ocorreu o desmoronamento, teriam sido obrigadas a gastar mais um pouco dos seus lucros para dar segurança aos trabalhadores.
Quando houve a proposta sobre as normas mínimas, um dos ferrenhos opositores foi o então líder da oposição ao governo da Concertación. E sabem quem era ele? Sebastián Piñera, que considerava a medida proposta “burocrática e contrária à liberdade de mercado”. Ele sempre integrou a turma do deus mercado, além de ter apoiado a ditadura de Augusto Pinochet.
O mesmo sorridente Piñera agora é apresentado pela mídia de mercado como “executivo eficiente”. Jornalões e telejornalões mostraram a “festa” e os dias posteriores sem lembrar de um passado recente em que os apologistas do “mercado tudo resolve” tiveram algum tipo de culpa no cartório.
O mundo dá voltas. Um dos mineiros resgatados, o líder do grupo, Luis Urzúa, teve o pai, dirigente sindical do Partido Comunista, desaparecido desde 11 de setembro de 1973, quando da derrubada do presidente Salvador Allende. O padrasto, Benito Tapia, dirigente sindical dos mineiros, foi uma das vítimas da Caravana da Morte, um esquadrão de extermínio formado em Santiago a mando de um general assassino de nome Sergio Arellano Stark, segundo informa o jornalista argentino Martin Granovsky.
Da mesma forma que se omite a questão da influência do deus-mercado na mineração, praticamente há um silêncio absoluto sobre as condições de vida dos indígenas mapuches, cujas lideranças estão sendo submetidas a uma legislação da época da hedionda ditadura de Augusto Pinochet e os protestos pouco aparecem.
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E, finalmente, acabou o drama dos 33 mineiros chilenos, um acidente que poderia ter sido evitado se os legisladores tivessem aprovado normas mais severas de segurança nas minas. Mas aí os defensores do mercado, entre os quais o atual presidente Sebastián Piñera, que aproveitou o show midiático que representou o resgate dos mineiros, não quis, por achar que seria prejudicial ao mercado.
Mas poucas vozes lembraram o fato mencionado. Um dos que não esqueceu foi o escritor chileno Luis Sepúlveda. Segundo ele, se tivesse sido aprovado pelo Parlamento um código de trabalho com regras mínimas de segurança, nada disso teria acontecido. Empresas como as responsáveis pela mina San José, onde ocorreu o desmoronamento, teriam sido obrigadas a gastar mais um pouco dos seus lucros para dar segurança aos trabalhadores.
Quando houve a proposta sobre as normas mínimas, um dos ferrenhos opositores foi o então líder da oposição ao governo da Concertación. E sabem quem era ele? Sebastián Piñera, que considerava a medida proposta “burocrática e contrária à liberdade de mercado”. Ele sempre integrou a turma do deus mercado, além de ter apoiado a ditadura de Augusto Pinochet.
O mesmo sorridente Piñera agora é apresentado pela mídia de mercado como “executivo eficiente”. Jornalões e telejornalões mostraram a “festa” e os dias posteriores sem lembrar de um passado recente em que os apologistas do “mercado tudo resolve” tiveram algum tipo de culpa no cartório.
O mundo dá voltas. Um dos mineiros resgatados, o líder do grupo, Luis Urzúa, teve o pai, dirigente sindical do Partido Comunista, desaparecido desde 11 de setembro de 1973, quando da derrubada do presidente Salvador Allende. O padrasto, Benito Tapia, dirigente sindical dos mineiros, foi uma das vítimas da Caravana da Morte, um esquadrão de extermínio formado em Santiago a mando de um general assassino de nome Sergio Arellano Stark, segundo informa o jornalista argentino Martin Granovsky.
Da mesma forma que se omite a questão da influência do deus-mercado na mineração, praticamente há um silêncio absoluto sobre as condições de vida dos indígenas mapuches, cujas lideranças estão sendo submetidas a uma legislação da época da hedionda ditadura de Augusto Pinochet e os protestos pouco aparecem.
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Derrotar a conspiração obscurantista
Reproduzo artigo do professor Bernardo Kucinski, intitulado "Os envergonhados e os desavergonhados", publicado no sítio Carta Maior:
Rompo meu silêncio de três anos na Carta Maior por causa da minha mulher. Ela perguntou: você não vai fazer nada? Não vai participar da campanha? Eu não sou mais jornalista, respondi, sou ficcionista; não quero mais saber de política, chega, cinqüenta anos sendo usado, agora chega. Ela acabara de ler a história do bispo que mandou imprimir dois milhões de folhetos contra a Dilma. Eu lembrei ter dito a ela que a Igreja Católica estava traindo, já naquele dia em que soltaram o manifesto acusando Lula da fascista, com a assinatura do Dom Paulo. O pobre homem em estado avançado de Alzheimer, e arrancam dele essa assinatura.
A Igreja não está traindo, está fazendo o que sempre fez, ela respondeu. Nós acabávamos de voltar de uma viagem à Cartagena, na Colômbia, onde visitamos o museu da Inquisição. Os instrumentos de tortura ali exibidos, de fazer o DOI-CODI sentir vergonha, ficaram gravados fundo na nossa imaginação.
Está traindo sim, eu falei, está traindo em primeiro lugar porque usou um método traiçoeiro, o método das mentiras, da difamação, em segundo lugar porque está usando o dinheiro que arranca dos pobres para combater o governo dos pobres, e em terceiro lugar porque está usando uma eleição universal, republicana, para emplacar um dogma religioso, dogma dos mais nefastos, que só prejudica as mulheres pobres.
Um Papa decidiu lá em Roma que o aborto é a linha divisória entre uma sociedade moderna, laica, regida pelo saber científico, e a sociedade atrasada, na qual os padres mandam na vida das pessoas e a Igreja por isso mantém seu poder. E veio a ordem, lancem a campanha contra o aborto bem no meio da campanha eleitoral. Eles são profissionais. Fazem isso há dois mil anos, desavergonhados. Os evangélicos, amadores, entraram de carona.
Agora vou falar dos envergonhados, esses que passaram oito anos disseminando mentiras sobre a transposição do São Francisco, acusando Lula de só beneficiar o agronegócio, demonizando as novas hidroelétricas, tumultuando audiências públicas em nome de índios e caboclos desprovidos de luz elétrica, obstruindo a construção de pontes e estradas que integrariam o continente, combatendo os transgênicos em nome de uma visão pré-darwiniana da natureza, esses que se condoem com gatinhos e pererecas, mas não com os meninos de rua ou os moradores de palafitas. Esses que agora estão lançando manifestos dizendo envergonhadamente para votar contra o Serra. Por que não dizem bem alto, votem na Dilma.
E também essas todas, amigas minhas, da Vila Madalena, de Pinheiros, da USP, mulheres esclarecidas, emancipadas, que votaram na Marina apesar de evangélica e anti-aborto e agora descobriram que todo o seu estado maior é formado por tucanos. Ou ainda não descobriram? A vocês todas eu digo: não se trata agora de derrotar o Serra ou o neoliberalismo. Tudo isso é transitório, efêmero. Trata-se de derrotar a grande conspiração obscurantista. Trata-se da luta milenar da razão contra a superstição, da tolerância contra o fanatismo, da modernidade contra o atraso.
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Rompo meu silêncio de três anos na Carta Maior por causa da minha mulher. Ela perguntou: você não vai fazer nada? Não vai participar da campanha? Eu não sou mais jornalista, respondi, sou ficcionista; não quero mais saber de política, chega, cinqüenta anos sendo usado, agora chega. Ela acabara de ler a história do bispo que mandou imprimir dois milhões de folhetos contra a Dilma. Eu lembrei ter dito a ela que a Igreja Católica estava traindo, já naquele dia em que soltaram o manifesto acusando Lula da fascista, com a assinatura do Dom Paulo. O pobre homem em estado avançado de Alzheimer, e arrancam dele essa assinatura.
A Igreja não está traindo, está fazendo o que sempre fez, ela respondeu. Nós acabávamos de voltar de uma viagem à Cartagena, na Colômbia, onde visitamos o museu da Inquisição. Os instrumentos de tortura ali exibidos, de fazer o DOI-CODI sentir vergonha, ficaram gravados fundo na nossa imaginação.
Está traindo sim, eu falei, está traindo em primeiro lugar porque usou um método traiçoeiro, o método das mentiras, da difamação, em segundo lugar porque está usando o dinheiro que arranca dos pobres para combater o governo dos pobres, e em terceiro lugar porque está usando uma eleição universal, republicana, para emplacar um dogma religioso, dogma dos mais nefastos, que só prejudica as mulheres pobres.
Um Papa decidiu lá em Roma que o aborto é a linha divisória entre uma sociedade moderna, laica, regida pelo saber científico, e a sociedade atrasada, na qual os padres mandam na vida das pessoas e a Igreja por isso mantém seu poder. E veio a ordem, lancem a campanha contra o aborto bem no meio da campanha eleitoral. Eles são profissionais. Fazem isso há dois mil anos, desavergonhados. Os evangélicos, amadores, entraram de carona.
Agora vou falar dos envergonhados, esses que passaram oito anos disseminando mentiras sobre a transposição do São Francisco, acusando Lula de só beneficiar o agronegócio, demonizando as novas hidroelétricas, tumultuando audiências públicas em nome de índios e caboclos desprovidos de luz elétrica, obstruindo a construção de pontes e estradas que integrariam o continente, combatendo os transgênicos em nome de uma visão pré-darwiniana da natureza, esses que se condoem com gatinhos e pererecas, mas não com os meninos de rua ou os moradores de palafitas. Esses que agora estão lançando manifestos dizendo envergonhadamente para votar contra o Serra. Por que não dizem bem alto, votem na Dilma.
E também essas todas, amigas minhas, da Vila Madalena, de Pinheiros, da USP, mulheres esclarecidas, emancipadas, que votaram na Marina apesar de evangélica e anti-aborto e agora descobriram que todo o seu estado maior é formado por tucanos. Ou ainda não descobriram? A vocês todas eu digo: não se trata agora de derrotar o Serra ou o neoliberalismo. Tudo isso é transitório, efêmero. Trata-se de derrotar a grande conspiração obscurantista. Trata-se da luta milenar da razão contra a superstição, da tolerância contra o fanatismo, da modernidade contra o atraso.
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