terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os escândalos políticos midiáticos

Reproduzo excelente artigo de Venício Lima, publicado no Observatório da Imprensa:

Tão logo as pesquisas revelaram que uma das candidatas à presidência da República havia atingido índices de intenção de voto difíceis de serem revertidos, e que os resultados indicavam a possibilidade de decisão ainda no primeiro turno, a grande mídia e seus "formadores de opinião" reagiram prontamente. Insistiram eles que fatos novos poderiam ocorrer e que ainda era muito cedo para cantar vitória.

Um exemplo: sob o título "Festa na véspera", a principal colunista de economia do jornal O Globo escreveu em sua coluna "Panorama Econômico" do dia 31 de agosto:

"Então é isso? Uma eleição cuja campanha começou antes da hora acabou antes que os votos sejam depositados na urna? (...) Fala-se do futuro como inexorável. O quadro está amplamente favorável a Dilma Rousseff, mas é preciso ter respeito pelo processo eleitoral. Se pesquisa fosse voto, era bem mais simples e barato escolher o governante".

Simultaneamente, a poucas semanas do primeiro turno das eleições, os jornalões, a principal revista semanal e a principal rede de televisão abriram fartos espaços para a divulgação de "escândalos" com a óbvia intenção de atingir a reputação pública da candidata favorita.

O primeiro diz respeito a vazamento de informações sigilosas da Receita Federal ocorridos em setembro de 2009 [antes, portanto, da escolha oficial dos candidatos e do início da campanha eleitoral]. O "escândalo" foi imediatamente comparado com o caso Watergate, que levou à renúncia o presidente dos EUA Richard Nixon, em 1974, e também à prisão de integrantes do PT em hotel de São Paulo, em 2006. A narrativa midiática logo passou a referir-se a ele como "Aloprados II" e/ou "Receitagate".

O segundo, que surge tão logo o primeiro parece não ter atingido os objetivos esperados, faz um incrível malabarismo ao tentar incriminar a candidata favorita através de ações de lobby e tráfico de influência atribuídos ao filho de sua ex-auxiliar. Um exemplo: a manchete de primeira página da Folha de S.Paulo de domingo (12/9): "Filho do braço direito de Dilma atua como lobista".

O que estaria acontecendo na grande mídia brasileira?

Controle e dinâmica

Em abril de 2006, no correr da "crise do mensalão", escrevi neste Observatório [ver "Escândalos midiáticos no tempo e no espaço"] sobre o conceito de "escândalo político midiático" (EPM) desenvolvido pelo professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, John B. Thompson, em seu aclamado "O escândalo político - Poder e visibilidade na era da mídia" (Vozes, 1ª edição, 2002).

O momento é oportuno para retomar os ensinamentos de Thompson.

Os EPM surgem historicamente no contexto do chamado jornalismo investigativo, combinado com o crescimento da mídia de massa e a disseminação das tecnologias de informação e comunicação. E, sobretudo, no quadro das profundas transformações que ocorreram na natureza do processo político, ainda dependente, em grande parte, da mídia tradicional. Envolve indivíduos ou ações situados dentro de um campo ligado à aquisição e ao exercício do poder político através do uso, dentre outros, do poder simbólico. Fundamentalmente, o exercício do poder político depende do uso do poder simbólico para cultivar e sustentar a crença na legitimidade.

O poder simbólico, por sua vez, refere-se à capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações e crenças de outros e também de criar acontecimentos, através da produção e transmissão de formas simbólicas. Para exercer esse poder, é necessário a utilização de vários tipos de recursos, mas, basicamente, usar a grande mídia, que produz e transmite capital simbólico - vale dizer, controla a visibilidade pública. A reputação, por exemplo, é um aspecto do capital simbólico, atributo de um indivíduo ou de uma instituição. O que está em jogo, portanto, num EPM é o capital simbólico do político, sobretudo sua reputação.

Como a grande mídia se tornou a principal arena em que as relações do campo político são criadas, sustentadas e, ocasionalmente, destruídas, a apresentação e repercussão dos EPM não são características secundárias ou acidentais. Ao contrário, são partes constitutivas dos próprios EPM.

Escândalo político midiático, portanto, é o evento que implica a revelação, através da mídia, de atividades previamente ocultadas e moralmente desonrosas, desencadeando uma seqüência de ocorrências posteriores. O controle e a dinâmica de todo o processo deslocam-se dos atores inicialmente envolvidos para os jornalistas e para a mídia.

Jogo de poder

Na verdade, a grande mídia ainda detém um enorme poder de legitimar a esfera propriamente política através do tipo de visibilidade pública que a ela oferece. Os atores da esfera política dependem de visibilidade na esfera midiática para se elegerem e/ou se manterem no poder. Através desse poder, próprio da esfera midiática, a grande mídia tenta submeter e controlar o processo político, em particular os processos eleitorais. É aí que surgem os EPM.

Não seria exatamente a tentativa de controlar a esfera propriamente política o último recurso que a grande mídia - declaradamente oposicionista pela voz da presidente da ANJ - estaria a exercer na construção de EPM a poucas semanas das eleições?

Será que o Brasil de 2010 é o mesmo de 2006, quando tentativa semelhante levou as eleições presidenciais para o segundo turno?

O que está realmente em jogo é o poder da mídia tradicional - e, por óbvio, dos grupos dominantes do setor - em tempos de profundas transformações nas comunicações. Em tempos de internet.

Quem viver verá.

.

Informar certo, reagir na hora

Reproduzo artigo de João Franzin, publicado no sítio da Agência Sindical:

Os boatos que corriam, sexta, sobre os ataques da imprensa na reta final da campanha eleitoral se confirmaram. O objetivo dessa ação articulada – observe que o “Estadão” repercutiu em manchete domingo a matéria que saiu na “Veja” – é criar um clima de histeria que: 1) Não deixe Serra levar uma surra nas urnas; 2) Leve o pleito para o segundo turno – e aí passe a imperar o vale-tudo; 3) Impeça o avanço eleitoral de candidatos a governos e ao Senado mais à esquerda; 4) Faça o denuncismo ter peso eleitoral.

Como outras denúncias virão – já que se trata de uma campanha articulada – vale adotar cautelas e providências, seguindo a velha fórmula de desmanchar/desorganizar com uma das mãos e construir/organizar com a outra mão.

Sendo assim, proponho a blogs, sites, veículos sindicais e outros não-alinhados ao denuncismo:

1. Sempre divulgar e repercutir as boas/ótimas notícias da economia, relacionando ganhos concretos para a nação: crescimento do PIB; 14 milhões de empregos gerados; ascensão social de milhões de brasileiros; aumento no salário mínimo – e mais uma tonelada de boas notícias, ações governamentais e conquistas sindicais;

2. Relembrar e difundir as mazelas dos anos FHC e governos tucanos: desemprego em massa; achatamento do salário mínimo; privatizações criminosas; subserviência à política dos Estados Unidos; afundamento da plataforma da Petrobrás; compra do segundo mandato de FHC; pedágios abusivos – e mais uma tonelada e meia de problemas e ações governamentais contra os interesses do povo;

3. Criar o plantão 24 horas dos blogs, sem parar, até a apuração, dia 3. Ou seja, contra a ação de tropas regulares, respostas guerrilheiras, que desorganizem o campo adversário e orientem ações no nosso campo;

4. Divulgar, nos materiais sindicais, nos veículos não-conservadores e nos próprios blogs dos nossos candidatos os endereços desses blogs do nosso lado;

5. No campo sindical – uma vez massificadas as informações sobre os ganhos concretos e os riscos representados pela direita – promover atos unitários com as entidades e os trabalhadores;

6. No campo estritamente eleitoral, massificar as campanhas dos nossos aliados; aumentar a presença física das campanhas; distribuir o máximo de material à população e aos eleitores, ocupando o mais possível o espaço no terreno da batalha.

.

Mídia tenta estancar a sangria

Por Altamiro Borges

Um fantasma ronda e desespera a mídia demotucana. Ela teme que uma forte “onda vermelha”, impulsionada pelo crescimento de Dilma Rousseff, afunde vários outros candidatos neoliberais aos governos estaduais, ao Senado e à Câmara Federal. Somada à vitória para a presidência, este resultado alteraria a correlação de forças na política brasileira, o que pavimentaria propostas mais ousadas de mudanças no país. Daí o seu esforço recente para estancar a sangria!

Objetivos da baixaria midiática

Toda a gritaria sobre a quebra do sigilo fiscal dos tucanos ou outros factóides teria dois objetivos básicos. O primeiro é tentar levar José Serra para o segundo turno, mesmo que seja com a ajuda da candidata verde Marina da Silva. O segundo, como subproduto, é evitar que o definhamento da candidatura demotucana contamine as disputas estaduais. Os sinais, neste sentido, são nítidos e indicam que a baixaria vai crescer nestas três últimas semanas de campanha eleitoral.

As pesquisas apontam que vários expoentes da direita nativa estão no cadafalso. Marco Maciel, César Maia, Arthur Virgílio Neto, Agripino Maia, entre outros demotucanos, caminham para a derrota na briga pelo Senado. Em São Paulo, os dois candidatos do bloco governista estão na dianteira; o mesmo ocorre no Paraná, Distrito Federal e em outros importantes estados. Já na disputa para a Câmara Federal, pesquisas indicam forte retração da bancada dos demos. Os tucanos também estão na berlinda. Direitistas convictos estão desesperados!

“Fim do DEM é um dado da realidade”

Diante desta tendência, os porta-vozes da mídia já soaram o sinal de alerta. Renata Lo Prete, da FSP (Folha Serra Presidente), escreveu neste final de semana: “Em privado, o fim do DEM é tratado como um dado de realidade pelos principais líderes do partido. A diferença se dá entre os que apostam em algum tipo de fusão agregadora de oposicionistas e aqueles que planejam pular do barco sozinhos, de preferência rumo a siglas lulistas. A segunda opção é majoritária”.

Ilimar Franco, do jornal O Globo, também já captou a possível reviravolta no quadro político. “Baseado nas pesquisas que faz em todos os estados do país, o Ibope concluiu sua projeção para o novo Senado. O PMDB, que preside a Casa, terá a maior bancada, com 17 a 19 senadores. O PT passará a ser a segunda bancada, com 13 a 16 senadores. Os partidos de oposição ficarão menores. O PSDB terá de nove a 12 cadeiras, e o DEM ficará com sete ou oito”.

O medo da "onda vermelha"

Preocupada, Cristiana Lôbo, uma das colunistas prediletas da família Marinho, já advertiu para o risco. No artigo “Subindo o tom”, ela informa que “o PSDB pretende subir o tom nas críticas à candidata petista Dilma Rousseff nesta reta final da campanha para marcar diferenças entre sua proposta e a da adversária e, assim, tentar recuperar o eleitorado que José Serra vem perdendo desde que começou a propaganda na televisão. Ainda que não haja tempo para reverter o quadro sucessório bastante favorável à Dilma, os tucanos consideram importante marcar diferenças”.

Conforme argumenta, “O maior temor do PSDB a esta altura da campanha é que o favoritismo de Dilma Rousseff provoque a chamada ‘onda vermelha’ que afete até os candidatos tucanos favoritos nas disputas aos governos estaduais – como Geraldo Alckmin, em São Paulo; Beto Richa, no Paraná e Antonio Anastasia, em Minas Gerais”. Estes e outros alertas indicam que toda a gritaria da mídia sobre os “novos escândalos” visa estancar a sangria da direita nativa. A bola da vez parece ser a da batalha para os governos estaduais, Senado e Câmara Federal.

.

Serra, cadê os blogs sujos?

Reproduzo artigo de Brizola Neto, publicado no blog Tijolaço:

Pena não termos um “Sindicato dos Blogs”, porque José Serra merecia que entrássemos hoje mesmo na Justiça contra ele. É que, usando a técnica de não citar os nomes e acusando genericamente, fica difícil fazer isso individualmente. Porque o que ele diz são palavras caluniosas, para variar.

Hoje, durante palestra na Ordem dos Advogados do Brasil, Serra disse que “blogs sujos” ligados à candidata petista veicularam informações obtidas com as quebras de sigilo de pessoas ligadas ao PSDB – entre elas o vice-presidente do partido, Eduardo Jorge, segundo a Folha Online.

“Esses blogs mantidos pelo governo ou pelo PT apresentavam já dados de Imposto de Renda de algumas das pessoas que depois se descobriu que tinham tido seus sigilos violados. Se essas pessoas fazem isso hoje em uma campanha, imaginem o que fariam detendo o poder federal em mãos?”

Estranha-me que nenhum advogado e nenhum jornalista tenha pedido a Serra para nominar qual ou quais os “blogs sujos” divulgaram informação coberta por sigilo fiscal e que informações foram essas.

E de que se vale Serra para promover a ligação entre Dilma e os “blogs sujos” aos quais não nomina?

Diz a Folha: Serra disse que os blogs citam o nome de Dilma e são ligados à candidata uma vez que ela não desautorizou a vinculação das páginas ao seu nome. “A pessoa é corresponsável porque não desautoriza. E ao não desautorizar há caráter de representatividade no blog.”

Muito interessante a teoria de Serra. neste caso, então, ele é corresponsável pelas ações do tal de Magnus Carlos durante os meses a fio em que este usou o domínio www.joseserra.com.br. Este espertalhão, que se apresentava pedindo dinheiro para uma campanha antidrogas, publicava anúncios – isso mesmo, anúncios pagos – contra Lula e Dilma na internet. Eu denunciei isso aqui no Tijolaço em outubro de 2009 e , como só em fevereiro ou março Serra procurou, por razões eleitorais, recuperar o domínio com seu nome, tem-se, pela teoria tucana, sua corresponsabilidade em tudo que se fez ali.

A técnica da calúnia é assim: não se diz quem, quando, o que alguém fez. Insinua-se, afirma-se genericamente, e diz-se que alguém é culpado até que se prove inocente.

É por isso que caluniar é próprio dos canalhas.

.

A pancadaria na mídia vai piorar, sim!

Reproduzo artigo de Rodrigo Vianna, publicado no blog Escrevinhador:

Serra já tentou ser bonzinho. Já tentou ser Zé. Tentou virar Lacerda, batendo à porta dos quartéis. Agora, virou o inquisidor-mor do Brasil (ou “caluniador”, como Dilma pregou na testa do tucano): nada disso deu resultado.

Serra encolhe, já beira os 20% dos votos na pesquisa Vox/Band/IG. Ele, a essa altura, virou uma espécie de Tiririca: pior do que está não fica.

O problema é que isso não tem graça nenhuma. Quanto mais despenca, mais Serra se afunda no gueto: vira um candidato acuado, ressentido, que mexe com os piores sentimentos do conservadorismo no Brasil. Quem fica ao lado dele é só a turma que quer conter o “comunismo”, que chama Bolsa-Família de “bolsa-esmola”, que insiste em chamar Lula de ”analfabeto”, “nordestino ignorante”, ”apedeuta”.

Passada a eleição, o tucano provavelmente vai ser lançado ao ostracismo. Mas o discurso do ressentimento – que ele encampou – seguirá vivo. Especialmente na velha imprensa. O festival de escândalos fabricados às vésperas da eleição mostra qual o clima que se pode esperar durante um provável governo Dilma. A guerra vai seguir. Engana-se quem pensa que o céu ficará desanuviado. Não. Derrotada e minoritária, a mídia velha vai ficar ainda mais aguerrida. Testará a capacidade de resistência de Dilma.

Lula não comprou essa briga de frente. Confiou em sua capacidade de ser o comunicador maior do governo, comendo pelas beiradas a velha mídia. Dilma não tem (ainda) a capacidade de mobilização de Lula. Como Dilma vai enfrentar a “Veja”, “O Globo”, a “Folha”, o “Estadão”?

Os três últimos são da velha escola golpista. A primeira é da nova escola fascista.

A provável presidenta Dilma travará essa batalha sozinha, no peito e na maciota, como fez Lula? Não. Essa precisa ser uma batalha da sociedade.

Há quem defenda a necessidade de uma articulação de partidos, sindicatos, movimentos sindicais, blogueiros e jornalistas progressistas, para dizer à turma (sedenta de sangue) que está do outro lado: se tentarem avançar o sinal, haverá reação.

Agora, na reta final da eleição, ou nos próximos meses, no início de um provável governo Dilma, a sociedade brasileira terá que dar conta dessa questão. A democracia brasileira precisa enfrentar e enterrar os velhos barões da mídia. Eles levarão uma surra nas urnas, abraçados ao candidato tucano. Mas - ao contrário de Serra - ainda não viraram Tiririca: são capazes de coisas muito piores do que promover crises e inventar escândalos. Já provaram isso no passado, como escrevi aqui.

.