sexta-feira, 29 de maio de 2026

Trump e o Primeiro Comando da Corja

Por Marcelo Zero, no site Viomundo:

O que aconteceu é muito sério. Pela primeira vez na história, o Brasil é acusado, de forma mentirosa, de abrigar “organizações terroristas estrangeiras.”

Uma aparente vitória do Primeiro Comando da Corja, organização de “patriotas” dedicada, com afinco, a atacar os interesses e a imagem do Brasil. Um pessoal que detesta soberania e adora a coleira da submissão. Normalmente, seus integrantes andam em 4 patas e não têm raça discernível.

Um tiro que, porém, pode sair pela culatra, pois sabe-se que essa singular e ambivalente organização teria recebido muito dinheiro de Vorcaro, sujeito que, segundo a Polícia Federal, possuía notórias ligações com facções criminosas e organizações agora tachadas de terroristas pelos EUA.

É preciso entender que as leis antiterrorismo dos EUA têm caráter extraterritorial. Isto é, elas permitem que os EUA promovam ações nos territórios de outros países, sem que isso passe, necessariamente, por mecanismos de cooperação.

Os EUA podem decidir fazer isso de forma inteiramente unilateral.

A Executive Order 13.224, publicada logo após o 11 de setembro de 2001, é especialmente rigorosa.

Entre as muitas coisas que os EUA estão facultados a fazer, segundo essas leis, estão o congelamento de ativos de instituições financeiras brasileiras, o congelamento de fundos soberanos, a proibição de operações financeiras, por parte de instituições brasileiras, usando o sistema internacional, novas sanções comerciais e econômicas, deportações, prisões, ações de inteligência no território de outro país, ações operativas clandestinas nos territórios de outros países, operações híbridas para desestabilizar governos que seriam supostamente ”negligentes” com o combate ao terrorismo etc.

Empresas, bancos, indivíduos, ONGs etc. podem entrar na dança macabra. Na Venezuela, até inocentes pescadores artesanais submergiram fatalmente na vala comum do terrorismo. Em Cuba, entraram médicos.

Em última instância, pode-se passar até mesmo o que aconteceu na Venezuela. Uma intervenção militar para sequestrar o Presidente da República e levá-lo a uma corte de justiça dos EUA, sob a alegação, mentirosa, de que tal Chefe de Estado seria um perigoso “narcoterrorista”.

Todo depende do ânimo político de gente extremamente reacionária, como Marco Rubio, por exemplo. Quem sabe uma intervenção na Baía de Guanabara, como sugeriu candidamente Flávio Bolsonaro.

Claro que o Brasil não é a Venezuela. Ademais, o nosso país vem cooperando ativamente, há muito, com os EUA, no combate ao crime organizado. Algo que o governo Lula leva muito a sério.

Mas esse é um argumento um tanto ingênuo.

A classificação de uma organização criminosa comum como “terrorista” obedece, normalmente, apenas a uma necessidade política de possuir instrumentos legais e desculpas jurídicas para fazer intervenções em países ou governos que não se alinham aos interesses da atual administração dos EUA. É simplesmente uma ferramenta geopolítica bastante útil.

Estamos em ano eleitoral. É óbvio que o governo Trump, ou sua parte mais ideológica, tentará favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro e criar, por outro lado, problemas para a candidatura de Lula.

Por isso mesmo, a extrema-direita brasileira, traindo os interesses do Brasil, vem, há tempos, buscando, de maneira desavergonhada, estabelecer uma associação esdrúxula entre o governo Lula e a criminalidade e o “narcoterrorismo”.

A este respeito, destaque-se que os governos do México e da Colômbia, ambos de esquerda, vêm sendo fortemente pressionados pelos EUA para concordarem com intervenções diretas do governo Trump em seus territórios, o que seria algo extremamente embaraçoso e deslegitimaria ambos os governos.

Repito que, se considerar necessário ou conveniente, o governo dos EUA assim o fará.

Ninguém sabe o que poderá acontecer no Brasil, depois dessa decisão.

Um primeiro objetivo, no entanto, foi alcançado: desviou-se, ao menos momentaneamente, a atenção da opinião pública do escândalo “Dark Horse”.

O segundo objetivo a ser alcançado será, paradoxalmente, o de dificultar a cooperação bilateral entre o Brasil e os EUA, na área da segurança pública, já que, agora, tal cooperação enfrentará a burocracia rígida da “segurança nacional”. Dificilmente conseguiremos informações úteis da CIA. Ficaremos mais inseguros.

Observe-se que tal decisão foi tomada sem justificativa técnica alguma, já que, de acordo com os próprios dados dos EUA, o PCC e o Comando Vermelho exportam drogas (principalmente cocaína) para a Europa e o Oeste da África. Quase nada chega aos EUA. Acusar o Brasil nessa área é, portanto, praticamente a mesma coisa que acusar o Canadá.

Na realidade, quem pode ser acusado de alguma coisa nessa área são os próprios EUA, que não controlam seus produtores de drogas e cujos fabricantes de armas fornecem mais de 75% dos armamentos usados por narcotraficantes latino-americanos.

Uma coisa é certa, porém, o principal prejudicado deverá ser o Brasil e sua economia.

O Primeiro Comando da Corja, corrupto e unido, por suas sabidas liaisons dangereuses, ao crime organizado e, portanto, ao narcoterrorismo, já demonstrou muito bem como gosta de prejudicar o País e o seu povo.

* Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

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