segunda-feira, 4 de maio de 2026

A vida boa do fascismo com o jornalismo

Por Moisés Mendes, em seu blog:

Os ditadores da América Latina temiam o jornalismo das corporações. Temiam até alguns donos de organizações de mídia que começavam apoiando seus golpes, o que era a regra, e depois se dedicavam ao que viria a ser mais atraente: a defesa da democracia como arma para conter a intromissão dos militares em seus negócios e como oportunidade de mercado.

Ser democrata, mesmo que genericamente, era charmoso e lucrativo no final do século 20. Eram os tempos dos direitos humanos, do abaixo a ditadura e a tortura e de todas as ações antitotalitárias. Em algum momento, até os jornalões se consideravam transgressores como desafiadores dos poderosos.

Aconteceu assim no Brasil, na Argentina e em outros países da vizinhança, enquanto a imprensa americana inspirava e denunciava as atrocidades das guerras deles. Jornais que apoiaram ditadores quando da tomada do poder acabavam sendo absorvidos pelas mobilizações pró-democracia.

Assim os donos dos jornais foram empurrados, no exemplo clássico brasileiro, para o movimento das Diretas Já. As redações eram redutos quase incontroláveis andando na direção do que o povo desejava. Os ditadores passaram a ter medo do jornalismo da grande imprensa, e não só da imprensa dita alternativa e que chamavam de nanica.

Hoje, fascistas e simpatizantes em geral de ditadores não temem Globo, Folha ou Estadão. Porque os herdeiros dos donos já não agem como seus antecessores, que pelo menos faziam a remissão de pecados.

E as redações não têm as virtudes da bravura e do improviso dos anos 70 e 80. Os jornalistas driblavam até os patrões. Mas não há mais drible na grande imprensa brasileira, só há toque para os lados, quase sempre para a direita.

Bolsonaro, seus filhos e seus cúmplices são inimigos pessoais dos jornalões e das corporações de mídia porque nunca se entenderam. Mas não temem essas corporações. Nem Alcolumbre teme. Nem Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab, Tarcísio de Freitas.

O centrão e as quadrilhas das emendas não têm medo dos jornalões. Nem os sócios do PCC dentro das fintechs que fazem lavagem de dinheiro na Faria Lima temem os jornalões. A grande imprensa fala do PCC, mas não fala de seus parceiros no mercado financeiro.

A regra é essa: as pautas dos jornalões, e em especial o colunismo de intrigas e de ‘opinião’, não têm conexão com que o jornalismo já fez no passado recente na tentativa de conter os avanços da extrema direita.

Não há um exemplo, um só, que o jornalismo possa apresentar como resultado de investigação sobre a tentativa de golpe contra Lula. Nada sobre o plano dos assassinatos de Lula, Alckmin e Moraes pela gangue dos kids pretos. Nada sobre os bloqueios de rodovias. Nenhuma linha sobre os atentados às torres de energia. Nada sobre os grandes financiadores do golpe.

Não há nada porque a reportagem um dia chamada de investigativa foi substituída pela preguiça do jornalismo de vazamentos. Com exceções cada vez mais raras e afirmadoras de uma regra que deveria constranger as empresas e seus profissionais.

Colunistas passaram a comer pela mão de vazadores e se tornaram dependentes das suas rações. Desde que a informação vazada seja contra Lula e as esquerdas e, agora, contra o Supremo.

A democracia deixou de ser um bem relevante para a sobrevivência dos jornais, e é provável até que o contrário seja o que mais interesse hoje para que as corporações fidelizem audiência e mercados.

Os jornalões já não temem riscos apostando de novo na derrota de Lula, mesmo que a única alternativa seja Flávio Bolsonaro e o retorno do fascismo ao poder. A missão maior de defesa de democracia perdeu sentido. Até a história de que a grande imprensa é a única arma na briga contra as fake news virou uma conversa gasosa.

As corporações só não se atiraram sem disfarces nos braços do bolsonarismo porque é por ele esnobada e porque ainda enfrenta a guerrilha do jornalismo independente e progressista. Os jornalões são gatinhos ronronando no sofá da direita brasileira.

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