sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Dois grandes economistas brasileiros

Por Paulo Nogueira Batista Jr.

O ano de 2020 marca o centenário do nascimento de Celso Furtado, e as homenagens a ele têm-se multiplicado. Nada mais justo, foi o maior economista brasileiro do século 20. Quem poderia rivalizar com ele? Talvez Mário Henrique Simonsen. E pode ser interessante fazer o contraste entre os dois.

Furtado estudou e ensinou na França. Passou também por Cambridge, na Inglaterra, escola fortemente marcada por Keynes e pela primeira geração de keynesianos, entre eles Nicholas Kaldor e Joan Robinson. A sua formação intelectual traz fortes influências europeias, portanto. Já Simonsen, embora nunca tenha estudado fora do Brasil, tinha suas raízes fincadas na economia tal como praticada nos Estados Unidos.

Em uma frase, Simonsen praticava Economics (Economia); Furtado, Political Economy (Economia Política). “Economia Política”, o nome original da disciplina, que foi abandonado no século passado, é provavelmente mais apropriado, tendo em vista a natureza dos desafios com que se defrontam os economistas, e principalmente os macroeconomistas. Furtado costumava dizer que nunca havia sido apresentado a um problema econômico que não fosse, ao mesmo tempo, um problema político.

Daí derivam diferenças importantes de método. Simonsen recorria com frequência à economia matemática e à econometria, seguindo tendência liderada pelos departamentos de economia das universidades norte-americanas. Em Furtado, não aparecem equações e modelos. Não me recordo de ter visto alguma equação, por mísera que fosse, em seus escritos. Nesse ponto, como em outros, ele seguia a tradição de Keynes e dos keynesianos de Cambridge, mais reticentes em relação à utilidade ou confiabilidade dos modelos econômicos e da econometria.

É notável, observo de passagem, o baixo grau de formalização matemática na principal obra teórica de Keynes – “A Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda”. E Keynes também se mostrava cético em relação à econometria, que dava os seus primeiros passos na década de 1930. A sua controvérsia com Jan Tinbergen, um dos pioneiros na aplicação de métodos estatísticos à economia, é um exemplo notável do seu ceticismo e merece ser lida. Esse ceticismo persistiu na primeira geração de keynesianos. Joan Robinson, por quem Furtado foi muito influenciado, costumava lamentar que a economia se transformara num ramo (não muito sofisticado) da matemática aplicada.

Sendo não-matemática, a economia de Celso Furtado não deixava, porém, de ser analítica. Ao contrário, um dos pontos fortes de Furtado é a sua extraordinária capacidade de abstração. Por exemplo, “Formação Econômica do Brasil”, obra decisiva para o estudo da história econômica brasileira, não é, na verdade, um livro de “história econômica”, mas antes de “economia histórica” – no estilo da Historical Economics de Charles Kindleberger. Houve até tentativas, não sei se muito bem-sucedidas, de formalizar matematicamente a análise de diversos capítulos dessa obra de Furtado. A dificuldade de fazê-lo deriva talvez de que a matemática não consiga realmente dar conta da análise de processos históricos em todas as suas dimensões e sutilezas.

Há um traço comum entre Furtado e Simonsen que merece ser destacado. Nenhum dos dois era dado a posições extremas. Ambos tendiam a certo ecletismo. Simonsen estava mais próximo do que nos Estados Unidos se chama às vezes da saltwater econonomics (“economia de água salgada”, tal como ensinada em Harvard, MIT e outras universidades situadas na costa Leste ou Oeste) do que da freshwater economics (“de água doce”, ensinada em Chicago e outras universidades situadas à beira dos Grandes Lagos). Ou seja: não era um ultraliberal, mas um liberal moderado, que incorporava elementos da tradição keynesiana e reconhecia a importância da intervenção estatal na economia.

Devo dizer, aliás, que são raros os economistas ultraliberais entre nós. Um deles, entretanto, tornou-se célebre recentemente. Permita-me, leitor, abrir um pequeno parêntese sobre este economista. No início dos anos 1980, ao retornar de um encontro da Associação Nacional dos Centros de Pós-graduação em Economia (Anpec), eu viajei ao lado do então jovem Paulo Guedes. Ele voltara há poucos anos da Universidade de Chicago, carregado de ideias e convicções. Na Anpec, ele tivera o infortúnio de participar de uma mesa de debates com Maria da Conceição Tavares que, com o seu modo avassalador, descascou o bambu em cima do Chicago boy. Foi medonho. No avião, Guedes lambia as feridas e desabafava comigo: “Esse pessoal está completamente defasado. Antes de ir para os Estados Unidos, eu também pensava que Celso Furtado era importante. Cheguei lá e vi que não é!”. Não poderia imaginar que o economista que me brindava com essa observação curiosa deteria, quarenta anos depois, todas as alavancas da economia em suas mãos, com as consequências que estamos vendo.

Mas fecho esse parêntese e volto à comparação entre Mário Henrique Simonsen e Celso Furtado. Assim como Simonsen não era ultraliberal, Furtado, por sua vez, não era marxista, ainda que tenha sido influenciado por Marx e autores marxistas. Ele deixou isso claro em entrevista a Rosa Maria Vieira, publicada pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, na qual recapitulou a sua formação intelectual e discutiu os pensadores, não só economistas mas de outras áreas, que foram para ele fontes de aprendizado e inspiração (https://pesquisa-eaesp.fgv.br/sites/gvpesquisa.fgv.br/files/arquivos/74-217-1-pb.pdf ). Todos os que estudaram a sociedade moderna, observou Furtado, foram influenciados por Marx. “Entretanto, o marxismo nunca me seduziu, propriamente, como uma doutrina. A grande sedução do marxismo estava na sua macroeconomia, que era pioneira: poder olhar a sociedade como um todo. Mas, quando eu cheguei a ela, já tinha passado por Keynes, cuja macroeconomia era mais sofisticada.”

Furtado e Simonsen se situam, portanto, no vasto campo intermediário entre ultraliberalismo e marxismo. O primeiro, digamos, na centro-esquerda; o segundo, na centro-direita. A grande diferença entre os dois, porém, é de outra ordem. Simonsen era de uma inteligência fora do comum, mas faltava a ele um atributo que sobra em Furtado – criatividade. Simonsen foi, primordialmente, um divulgador da economia ensinada nos Estados Unidos, que aplicava com maestria à discussão dos problemas brasileiros. A sua principal contribuição original à macroeconomia talvez tenha sido a investigação da correção monetária e da “realimentação inflacionária”, que está na origem do que viria a ser conhecido como “inflação inercial” e do método de desindexação utilizado com sucesso no Plano Real – a Unidade Real de Valor (URV).

Já Furtado é, essencialmente, um pensador original, que trouxe contribuições variadas para a teoria e a história do desenvolvimento – em especial, do subdesenvolvimento econômico –, que marcaram época não só no Brasil, mas no resto da América Latina e do mundo. Como notou Rosa Maria Vieira, na apresentação da entrevista acima citada, a obra de Furtado transforma, por vias teóricas originais, o subdesenvolvimento em categoria de reflexão científica, podendo ser vista como marco fundamental do pensamento econômico do século 20. Simonsen era conhecido praticamente só no Brasil, ao passo que obra de Furtado virou referência internacional.

Não por acaso, Furtado atribuía papel central, na atividade científica, a duas qualidades normalmente associadas à arte ou à atividade política e nem sempre lembradas por estudiosos da metodologia da ciência – imaginação e coragem. Esses dois ingredientes, dizia ele, tem que ser combinados na busca do incerto. E acrescentava, com certo distanciamento em relação à academia que costuma caracterizar as mentes realmente criadores: “A ciência é construída por aqueles que são capazes de ultrapassar os limites definidos pelo mundo universitário (“O Capitalismo Global”, editora Paz & Terra, 1998).

* Uma versão resumida deste texto foi publicada na revista “Carta Capital” em 18 de setembro de 2020.

* Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata.

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