Por Altamiro Borges
Divulgado na semana passada, estudo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) mostra que o Brasil registrou 222.139 acidentes de trabalho somente nos cinco primeiros meses deste ano – uma média de 1.471 casos por dia. É o segundo maior índice desde 2023, quando os dados passaram a ser coletados. Desde aquele ano, o país já contabilizou 1,8 milhão de acidentes de trabalho, o que representa mais de 45 mil ocorrências por mês.
Ainda de acordo com a pesquisa, as regiões Sudeste e Sul concentram quase três em cada quatro notificações. Juntas, elas responderam por 1,3 milhão de casos. Cinco estados acumulam 67% de todas as notificações do país: São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina. O estudo também mostra que os homens estão entre as principais vítimas. Mais assustador ainda é a idade: 75% dos acidentes de trabalho no país afetam pessoas de 20 a 49 anos.
Em entrevista à Folha, o presidente da Anamt, Francisco Cortes Fernandes, mostrou a importância desses estudos para definição de políticas públicas que reduzam a ocorrência de acidentes. “Para a medicina do trabalho, esses dados ajudam no planejamento de iniciativas amplas, ou até locais, que atuem diretamente no combate aos riscos que podem comprometer a vida, a saúde e o bem-estar dos trabalhadores e suas famílias”. Só em 2023, no governo Lula, que o Ministério da Saúde passou a exigir a notificação de todos os acidentes de trabalho atendidos pelos serviços de saúde.
Redução da jornada diminui acidentes e doenças
Uma das medidas mais eficazes para reduzir os acidentes laborais está em debate na sociedade – apesar da resistência da cloaca burguesa, da cedência do Senado ao lobby patronal e do silêncio da mídia burguesa. Trata-se da proposta do fim da escala 6 por 1, com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. Pesquisa recente do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que a atual e desumana jornada praticada no Brasil aumenta em 38% o risco de acidentes e doenças laborais.
Entre outros motivos, porque o cansaço extremo reduz os reflexos e a capacidade de reação mais rápida do trabalhador. Ele também eleva os casos de esgotamento mental e problemas físicos. Em alguns setores, como no transporte e no comércio, os índices de acidentes são ainda maiores devido ao desgaste prolongado. O fim da escala 6 por 1 ajudaria a reduzir esse grave problema – mas a cloaca burguesa pouco se importa com a vida e o bem-estar do trabalhador.
Excesso de jornada e acidentes laborais
Já levantamento feito pela ONG Repórter Brasil no final de 2024 mostrou que, das 20 ocupações campeãs em acidentes de trabalho, 12 também apareciam no topo da lista das 20 profissões com maior carga horária no Brasil. “Há uma relação direta entre excesso de jornada e acidentes de trabalho”, explicou a juíza Luciana Conforti, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra).
“Não é possível ter qualidade de vida se você não consegue ter sono de qualidade, se você não consegue ter uma rotina alimentar de qualidade, se você não consegue descansar. A escala 6 por 1 considera esse corpo como uma máquina de produzir, mas não como um sujeito que merece dignidade e vitalidade”, acrescentou a psicóloga Ana Luísa Araújo Dias, especialista em saúde mental e relações raciais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
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