Por Altamiro Borges
Duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira (31) devem ter animado os barões da mídia hegemônica, que há muito tempo torcem por um nome da “terceira via” para disputar as eleições presidenciais deste ano. Após a desistência de Tarcísio de Freitas, o governador paulista que se acovardou diante de Jair Bolsonaro, jornalões, revistonas e emissoras de rádio e TV testaram várias outras alternativas – como o agrotroglodita Ronaldo Caiado (PSD), o paquiderme Romeu Zema (Novo) e o fascistinha mirim Renan Santos (Missão). Eles, porém, não saíram do um dígito nas pesquisas. Agora, porém, surge o nome do empresário e coach Augusto Cury.
Na nova rodada da pesquisa BTG/Nexus, o candidato do Avante surpreende ao despontar no primeiro turno em terceiro lugar, com 11% das intenções de voto. O presidente Lula mantém-se na liderança (39%), seis pontos à frente de Flávio Bolsonaro (33%). Na sequência aparecem Ronaldo Caiado (5%), Renan Santos (3%), Romeu Zema (1%) e Samara Martins, do Unidade Popular (1%). No segundo turno, Lula e Rachadinha estão tecnicamente empatados (46 a 45%) e o instituto não simulou a disputa entre o atual presidente e Augusto Cury.
Já na pesquisa AtlasIntel, os índices são bem diferentes, mas também mostram o crescimento da candidatura do escritor de livros de autoajuda. No cenário do primeiro turno, Lula aparece com 43,4% das intenções de voto, contra 33,7% do senador do PL, uma vantagem de 9,7 pontos. Já Augusto Cury pula para o terceiro lugar, com 7,8% dos votos. Ele está tecnicamente empatado com Renan Santos (Missão), que marcou 7,6%. Nos cenários de segundo turno, Lula também aparece à frente de todos os adversários. Contra Flávio Bolsonaro, ele tem 47,1% ante 42,6%. O nome de Augusto Cury também não foi testado.
Um eleitorado mais volátil
Como destaca Ivan Longo em matéria na revista Fórum, a novidade da pesquisa BTG/Nexus foi a disparada do coach. “Há uma semana, o escritor registrava apenas 2% no mesmo cenário. Agora, chega a 11% – crescimento de nove pontos percentuais, muito superior à margem de erro do levantamento, de dois pontos. A arrancada também aparece na pesquisa espontânea, quando os entrevistadores não apresentam os nomes dos candidatos. Nela, Lula tem 37%, Flávio Bolsonaro, 30%, e Cury já surge com 8%. Há uma semana, ele marcava 1% na espontânea”.
Mas o artigo relativiza este surpreendente crescimento. “Apesar da disparada de Cury, o levantamento revela que seu eleitorado ainda é consideravelmente mais volátil que o dos dois líderes. Entre os que declaram voto em Lula, 85% dizem que a decisão já está tomada e não mudará. O mesmo percentual, 85%, aparece entre os eleitores de Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de Cury, 59% consideram a escolha definitiva, enquanto 39% admitem que podem mudar de candidato”.
O "Cavalo de Tróia" bolsonarista
O crescimento real ou volátil do coach ainda será testado em outros pesquisas. O que não há dúvidas é sobre seu perfil político. Disfarçado de terceira via, Augusto Cury é um nome que agrada o “deus-mercado” por suas posições neoliberais na economia e reacionárias na política. Um artigo do professor Rodolfo Fiorucci, do Instituto Federal do Paraná, postado no site Brasil-247, ajuda a desmascarar esse “Cavalo de Tróia”. Reproduzo alguns trechos:
“Augusto Cury se apresenta como o Cavalo de Tróia dessas eleições presidenciais no Brasil. Bem alinhado, fala corretamente e diz coisas que parecem fazer sentido num primeiro momento. Mas quando você traz o Cavalo de Tróia para dentro da cidade, no meio da noite aparece o real conteúdo: ataques a programas sociais, defesa de Estado Mínimo, papo de autoajuda econômica, preconceito de classe e elogio ao bolsonarismo, que é o grupo que quer tomar o poder para si.
Cury é o candidato mais rico desse pleito, com quase R$ 250 milhões declarados, sendo a maioria desses bens alocados em aplicações financeiras – ou seja, na especulação financeira que é o grande mal da economia brasileira e mundial. Ele ganhou destaque escrevendo livros de autoajuda, embora o próprio autor discorde dessa classificação amplamente reconhecida por especialistas, cientistas e acadêmicos. Seus livros tentam vender a ideia de ‘psicologia aplicada’, mas a crítica especializada os caracteriza como marketing de autoajuda tradicional. Seria uma versão mais rebuscada das fórmulas coach que individualizam os problemas e colocam o peso da história e da desigualdade nas costas de cada uma das pessoas em particular.
(...)
Quando Augusto Cury se afasta do disfarce de Cavalo de Tróia, diz que Caiado será seu Ministro-Xerife, que Tarcísio de Freitas (governador de São Paulo que teve péssimo resultado econômico e educacional em seu governo) seria seu Primeiro Ministro (cargo que nem existe no sistema brasileiro), que daria anistia aos golpistas do 8 de janeiro e que reveria a prisão de Jair Bolsonaro. Além disso, se alinha a essa turma nas críticas ao STF, o que praticamente gabarita a lista do bolsonarismo.
Usa termos do universo coach e de autoajuda em suas entrevistas para atacar o Presidente Lula, dizendo que o atual governo é incapaz de gerir a “mente coletiva da nação”, chamando-o de ultrapassado e que é preciso ampliar ainda mais o livre mercado e o Estado Mínimo, deixando o empreendedorismo reinar. Só faltou dizer que é preciso destravar o código para alterar o mindset da população.
(...)
Cury não diz claramente, mas por trás do seu discurso está o incômodo com o aumento real do salário mínimo, com programas sociais como Bolsa Família, Gás do Povo, Luz do Povo, Pé de meia, Farmácia Popular etc, pois isso implica em verbas públicas sendo usadas para beneficiar os que mais precisam e não ficam disponíveis para o 1% mais rico drenar para seus bolsos via Taxa Selic, Isenções fiscais e Planos Safra e Industriais.
(...)
Portanto, Cury, com um discurso bem elaborado, apresenta o Cavalo de Tróia para a população brasileira, não com objetivo de vencer as eleições, mas de ser mais um soldado bolsonarista para incendiar Tróia. Só que como se apresenta como médico e escritor ‘moderado’, tenta cooptar votos dos indecisos para, num segundo turno, declarar apoio a Flávio Bolsonaro e entregar a ele esses votos, que podem ser decisivos.
O presente de grego disfarçado de 3ª via está aí; coloca para dentro de casa quem quiser. Mas a história já demonstrou qual foi o destino dos troianos ao cair na armadilha do cavalo de Tróia”.
0 comentários:
Postar um comentário