terça-feira, 3 de novembro de 2026

O que aprendemos na eleição de 2026?

Por Clomar Porto

A eleição de 2026 deixou muitos recados para quem trabalha com política e comunicação. Talvez o mais importante deles seja também o que exige maior capacidade de reflexão: não estamos apenas diante de uma mudança na maneira de fazer campanha. Estamos diante de uma transformação na própria forma de fazer política, construir lideranças, organizar forças e estabelecer relações com a sociedade.

Há alguns anos repetimos que as redes sociais ganharam importância nas eleições. Essa constatação já é insuficiente. As redes deixaram de ser apenas instrumentos utilizados pela política para chegar até as pessoas. Tornaram-se um dos principais ambientes onde a própria política acontece. É ali, muitas vezes no intervalo entre uma receita, uma piada, um vídeo de futebol ou algum conteúdo de entretenimento, que milhões de brasileiros encontram uma mensagem política. E é também ali que conhecem lideranças, formam opiniões, identificam adversários, compartilham indignações e passam a fazer parte de comunidades.

Por isso, olhar para 2026 apenas como mais uma eleição em que “as redes foram importantes” seria compreender muito pouco do que aconteceu.

Uma nova forma de construir lideranças

A eleição consolidou uma transformação que vinha se desenvolvendo há alguns anos. Durante décadas, a lógica predominante era relativamente simples: alguém construía uma trajetória partidária, sindical, comunitária ou institucional, conquistava um mandato e, a partir dessa posição, ampliava sua projeção pública. Agora, em muitos casos, essa ordem está sendo invertida. Pessoas constroem primeiro audiência, estabelecem vínculos com determinados segmentos da sociedade, tornam-se referências sobre determinados assuntos e depois transformam esse capital comunicacional em capital eleitoral.

Os chamados nativos digitais deixaram definitivamente de ser uma curiosidade da política para se tornarem protagonistas. Isso aconteceu à direita e também à esquerda. E esse é um ponto importante para compreender corretamente o resultado. Não é verdade que somente a direita aprendeu a fazer política nas redes.

A esquerda também produziu fenômenos digitais, novas lideranças, candidaturas jovens e votações extraordinárias. O problema é outro: a direita conseguiu organizar melhor essa potência.

ATENÇÃO: O bolsonarismo não construiu apenas audiência. Construiu um sistema

Talvez uma das maiores dificuldades para compreender o bolsonarismo seja analisá-lo apenas como um conjunto de políticos que utiliza muito bem as redes sociais. É mais do que isso. Ao longo dos últimos anos, o bolsonarismo construiu um verdadeiro ecossistema político e comunicacional. Ele é, na prática, um partido digital cujo hospedeiro é o PL. Assim o PL tem duas almas, como muito bem definira o filósofo e cientista social Marcos Nobre, é o partido tradicional dos políticos tradicionais e, ao mesmo tempo, este movimento digital de extrema-direita: o partido digital bolsonarista.

Este ecossistema é formado por parlamentares, influenciadores, páginas, canais, lideranças religiosas, comentaristas, perfis locais, grupos de WhatsApp e milhões de cidadãos que passaram a compartilhar sistematicamente determinados comandos e referências. Nem todos precisam receber uma orientação central todos os dias. Eles compartilham códigos, inimigos, interpretações, linguagem e, principalmente, uma identidade. E, nos momentos decisivos, conseguem também compartilhar prioridades.

Isso faz enorme diferença. O bolsonarismo pode passar meses vivendo disputas internas ferozes, mas, quando chega a eleição, demonstra uma capacidade muito maior de suspender diferenças secundárias para enfrentar o adversário principal. Existe aí uma maturidade política que a esquerda precisa observar, sem que isso signifique copiar o conteúdo, a linguagem ou os métodos da extrema direita.

Porque existe uma diferença enorme entre ter milhares de perfis nas redes sociais e possuir uma rede política. A esquerda tem os perfis. O desafio é construir melhor a rede.

Os votos estavam lá. O problema também foi a fragmentação

Será que a esquerda foi tão mal assim no primeiro turno, em quantidade real de votos proporcionais? Os próprios resultados eleitorais ajudam a demonstrar que não foi bem assim. Um dos exemplos mais emblemáticos está em São Paulo. Conforme a análise apresentada pelo cientista político Beto Vasques, somados os votos do PSB, da Federação PT-PCdoB-PV e da Federação PSOL-Rede, esse campo político obteve aproximadamente 400 mil votos a mais do que o PL.

É um dado que deveria provocar uma reflexão profunda, porque desmonta a interpretação superficial de que a eleição teria simplesmente demonstrado uma enorme superioridade social da direita. Os votos estavam lá. O problema estava também na maneira como estavam organizados.

Segundo a mesma análise, se essas forças tivessem concorrido dentro de uma mesma federação, poderiam ter conquistado entre seis e oito cadeiras adicionais e, ao mesmo tempo, retirado aproximadamente o mesmo número de deputados do PL.

Não estamos falando de uma pequena diferença. Estamos falando de uma alteração significativa na correlação de forças dentro da Câmara dos Deputados.

A conclusão pode ser incômoda, mas é necessária: a fragmentação custa poder. E isso vale tanto para a organização partidária quanto para a comunicação.

Unidade não significa todo mundo pensar igual

Sempre que se fala em maior unidade da esquerda aparece uma preocupação legítima com a preservação da diversidade. A esquerda brasileira é plural. Tem diferentes partidos, tradições, movimentos, gerações, identidades e interpretações sobre vários temas. Isso não precisa ser um problema. Ao contrário, pode ser uma enorme força. O problema não é a pluralidade. O problema é confundir pluralidade com desorganização.

É perfeitamente possível haver diferenças internas e, ao mesmo tempo, construir uma estratégia comum. Não precisamos que todo mundo fale a mesma frase. Precisamos que diferentes vozes consigam contar partes de uma mesma história.

Isso significa responder coletivamente a algumas perguntas básicas: qual é a batalha principal deste momento? Qual mensagem queremos colocar no centro da sociedade? Qual é o nosso enquadramento sobre determinado acontecimento? Quem são os melhores porta-vozes para falar com cada público? Quando devemos concentrar nossa força sobre determinado tema?

A direita tem conseguido fazer isso com muito mais eficiência. Quando determinado assunto interessa ao seu projeto político, rapidamente se forma uma onda. Parlamentares falam, influenciadores repercutem, memes simplificam, grupos distribuem, vídeos colocam emoção e perfis menores levam aquela discussão para suas próprias comunidades. A mensagem ganha escala.

Na esquerda, muitas vezes, enquanto uma parte está tentando construir determinada agenda, outra está discutindo uma segunda pauta, uma terceira está envolvida numa disputa interna e uma quarta sequer entrou naquela conversa.

Então, não falta conteúdo, mas falta hierarquia de conteúdo. Não faltam causas. Falta agenda compartilhada. Não faltam comunicadores, falta coordenação.

A disputa não é apenas por voto. É por pertencimento

Existe uma transformação ainda mais profunda acontecendo na comunicação política. Durante muito tempo pensamos comunicação fundamentalmente como persuasão. Temos uma proposta, explicamos essa proposta, apresentamos argumentos, mostramos números e esperamos convencer o eleitor.

Essa dimensão continua existindo e é importante. Mas as redes potencializaram outra força: o pertencimento.

As pessoas não compartilham conteúdos políticos apenas porque concordam racionalmente com eles. Compartilham também porque aquele conteúdo expressa alguma coisa sobre quem elas são. Ao compartilhar, dizem de alguma maneira: eu penso assim, essas pessoas são como eu, esse é o meu lado.

É exatamente por isso que a política contemporânea se tornou tão identitária e emocional. O bolsonarismo compreendeu isso muito cedo. Criou símbolos, linguagem, humor, personagens, inimigos e códigos de reconhecimento. Construiu em milhões de pessoas a sensação de fazer parte de uma comunidade.

A esquerda precisa reconstruir esse pertencimento a partir dos seus próprios valores e, principalmente, reconectar esses valores à vida concreta das pessoas.

A vida real precisa voltar ao centro da política

Talvez esteja aí uma das chaves para o próximo período. A esquerda tem uma extraordinária capacidade de formular políticas públicas, discutir direitos e apresentar programas, mas frequentemente transforma temas que poderiam ser profundamente humanos em uma comunicação excessivamente institucional.

A vida das pessoas não acontece dentro de um PowerPoint. Acontece no supermercado, no ônibus, na fila do posto de saúde, na procura por emprego, no aluguel, na prestação da casa, no cuidado com os filhos, no salário que termina antes do mês e na falta de tempo para descansar.

É por isso que debates como o fim da escala 6x1 adquiriram tanta força. Antes de ser uma discussão sobre legislação trabalhista, existe uma questão humana extremamente simples: quanto da minha vida sobra depois do trabalho? Milhões de pessoas compreendem essa pergunta imediatamente.

A experiência concreta abre a porta. A política explica por que aquilo acontece. E um projeto político oferece uma alternativa.

Talvez a esquerda precise voltar a fazer mais esse caminho: partir da vida para chegar à política, e não esperar que as pessoas partam da política para compreender a própria vida.

Não basta transformar um discurso de cinco minutos em cinco Reels

Isso também significa entender que digitalização não é simplesmente produzir mais vídeos. Esse erro ainda é muito comum. Pega-se uma fala construída segundo a lógica tradicional, grava-se durante cinco minutos, recorta-se em pedaços de 30 segundos, coloca-se legenda e chama-se isso de estratégia digital. Não é.

A linguagem mudou. Nas redes, é necessário disputar atenção antes de disputar opinião. É preciso estabelecer rapidamente uma tensão, uma pergunta, uma identificação, uma curiosidade ou uma emoção capaz de fazer a pessoa permanecer. Isso não significa empobrecer a política. Significa aprender a organizar ideias complexas de maneira simples, humana e interessante.

O conteúdo digital precisa nascer digital. E isso exige mudar não apenas a edição, mas a maneira de pensar a mensagem antes mesmo de ligar a câmera.

O político que aparece apenas na eleição chegará cada vez mais atrasado

Há também uma consequência inevitável para as lideranças políticas tradicionais. Currículo continua importante. História continua importante. Mandato, partido, estrutura territorial e experiência continuam importantes. Mas nada disso garante, sozinho, competitividade eleitoral.

Um candidato com décadas de vida pública pode chegar à eleição tendo que se apresentar para milhares de pessoas, enquanto um jovem que nunca exerceu um mandato pode entrar na mesma campanha tendo conversado diariamente, durante três ou quatro anos, com centenas de milhares de seguidores.

Por isso, comunicação permanente não significa campanha eleitoral permanente. Não significa pedir voto durante quatro anos. Significa construir relação durante quatro anos.

Construir reconhecimento, autoridade, identidade, confiança e comunidade. O voto pode ser consequência dessa relação.

Um pé na rede e outro na rua

Nada disso significa decretar a morte da política territorial. Esse seria outro erro. A política continuará precisando de partido, sindicato, movimento social, associação, comunidade, militância, lideranças locais e presença física.

A questão é que a velha oposição entre rede e rua perdeu sentido. Precisamos das duas.

A rede amplia. O território enraíza. A rede encontra. O território organiza. A rede pode construir audiência, mas é a combinação entre comunicação e organização que transforma audiência em força política.

Existe uma sequência que considero cada vez mais importante para pensar estratégias: alcance, identificação, pertencimento, organização, mobilização e voto.

Muitas estratégias de comunicação terminam no primeiro ou no segundo ponto. Conseguem alcance, produzem identificação e às vezes conquistam centenas de milhares de seguidores, mas não existe mecanismo para fazer aquela pessoa dar o passo seguinte.

E aqui está uma distinção fundamental: seguidor não é militante, like não é voto e voto, sozinho, também não significa organização. O grande desafio será construir as pontes entre essas etapas.

Comunicação não pode continuar sendo apenas divulgação

Para quem trabalha profissionalmente com comunicação política, 2026 deixou ainda outro ensinamento importante. O modelo tradicional de assessoria de comunicação está ficando velho.

Durante décadas, a lógica foi aproximadamente esta: a política decide, a liderança faz e a assessoria comunica. Primeiro acontece a reunião, depois fazemos o post. Primeiro acontece o evento, depois fazemos o vídeo. Primeiro alguém define a posição política, depois chamamos a comunicação para descobrir como explicá-la. Isso já não basta.

A comunicação precisa estar dentro da construção estratégica. Precisa participar da leitura do cenário, do posicionamento, da definição das prioridades, da construção narrativa, da escolha dos porta-vozes, da segmentação dos públicos e da mobilização.

Precisamos substituir a pergunta cotidiana “o que vamos postar hoje?” por outras muito mais importantes:

Que percepção precisamos construir? Qual conversa queremos fazer acontecer? Que sentimento queremos produzir? Quem queremos mobilizar? E qual comportamento esperamos gerar a partir disso?

Quando fazemos essas perguntas, comunicação deixa de ser divulgação e passa a ser estratégia política.

A próxima eleição já começou

Pode parecer cedo dizer isso poucos dias depois de uma eleição, mas a próxima eleição já começou. Não começou o pedido de voto. Começou algo muito mais importante: a construção das condições que poderão produzir esse voto no futuro.

Enquanto boa parte da política tradicional desmonta seus comitês e reduz suas equipes, novas lideranças continuam conversando diariamente com milhares ou milhões de pessoas. Novas comunidades estão sendo formadas. Narrativas estão sendo testadas. Identidades estão sendo fortalecidas. Influenciadores estão ocupando espaços. E alguns dos deputados, senadores, prefeitos e governadores que vencerão as próximas eleições talvez estejam, neste exato momento, construindo suas primeiras comunidades digitais.

Por isso, o grande desafio da esquerda depois de 2026 não é aprender a fazer Reels. É muito maior. É construir unidade sem eliminar diversidade. É produzir renovação sem desperdiçar experiência. É voltar a conversar sobre a vida real. É integrar partido, movimento social, sindicato, mandato, influenciador, território e rede. É transformar audiência em comunidade e comunidade em organização.

A esquerda tem votos. Tem lideranças. Tem movimentos sociais. Tem sindicatos. Tem história. Tem experiência de governo. Tem novas gerações surgindo e tem capacidade de mobilização. O que precisa é organizar melhor toda essa potência.

A vitória do segundo turno e a confirmação de uma nova realidade

Este artigo começou a ser escrito logo após o resultado do primeiro turno das eleições, portanto, antes da grande vitória conquistada pela esquerda no segundo turno. E o que aconteceu depois não apenas reforça as reflexões aqui apresentadas, como oferece uma demonstração concreta da transformação que estamos vivendo na organização e na comunicação política.

A vitória histórica foi construída por uma extraordinária mobilização popular, que ganhou força nas ruas e nas redes sociais. Milhões de pessoas assumiram o protagonismo da disputa, produzindo conteúdos, compartilhando mensagens, organizando iniciativas e mobilizando outras pessoas. Nesse processo, também teve papel importante a articulação realizada por meio do grande canal de WhatsApp “O Exército de Lula”, liderado por André Janones, que ajudou a conectar e mobilizar milhões de brasileiros em torno de um objetivo comum.

Mas talvez o maior ensinamento dessa experiência seja compreender que não estamos falando exatamente de uma simples soma entre mobilização nas ruas e mobilização nas redes. Essa interpretação ainda pressupõe a existência de dois ambientes separados, que precisam ser conectados. E é justamente essa concepção que precisamos superar.

Vivemos uma nova realidade na qual as fronteiras entre o online e o offline praticamente desapareceram. A luta política acontece nas redes sociais, mas não porque elas sejam apenas mais um espaço para divulgar ideias ou convocar manifestações. Acontece porque as próprias redes se tornaram ambientes de organização, construção de identidades, formação de comunidades, mobilização e disputa política.

O digital não é mais uma dimensão separada da realidade. É parte constitutiva dela. As relações sociais, os sentimentos de pertencimento, as disputas de narrativas e a própria organização política acontecem simultaneamente nesses ambientes que já não podem ser compreendidos isoladamente.

Talvez esta seja, afinal, a principal mensagem deixada por 2026: comunicação e organização política já não podem ser pensadas separadamente. E a vitória no segundo turno demonstrou que, quando essa compreensão se transforma em ação coletiva, a capacidade de mobilização política pode alcançar uma dimensão extraordinária.

Daqui para frente, portanto, uma liderança deveria se preocupar menos com quantos seguidores possui e muito mais com uma questão: que comunidade política estamos construindo, qual projeto mantém essas pessoas juntas e como transformamos essa comunidade em força capaz de disputar o futuro?

Responder bem a essa pergunta será muito mais importante do que simplesmente dominar o próximo algoritmo. Porque o verdadeiro desafio não é apenas aprender a se comunicar em uma nova realidade. É compreender que essa nova realidade transformou profundamente a própria maneira de fazer política.

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