domingo, 4 de outubro de 2026

Fintechs da Faria Lima lavaram grana do PCC

Por Altamiro Borges

Mesmo após o escândalo do Banco Master, a mídia rentista segue tentando abafar a ação criminosa dos mafiosos da Faria Lima – a avenida na capital paulista que concentra os abutres financeiros e simboliza o poder dos banqueiros no Brasil. Algumas reportagens até são produzidas, mas não viram manchete e nem destaque nos noticiários da televisão. Na semana passada, por exemplo, o site UOL estampou no título que “PCC usa fintechs da Faria Lima para lavar dinheiro”.

Segundo a matéria, antes de ser assassinado em pleno Aeroporto Internacional de Guarulhos, o empresário Antônio Vinícius Lopes Gritzbach confessou parte do que sabia sobre a estrutura de lavagem de dinheiro do PCC. “Durante a delação, a Promotoria indicou que sabia pouco sobre operações financeiras digitais do crime organizado. Gritzbach detalhou aos promotores os mecanismos usados pelo PCC para lavar dinheiro e ‘bancarizar’ recursos ilícitos através do sistema financeiro”.

De acordo com Antônio Gritzbach, as operações aconteciam a partir da criação de fintechs estruturadas abaixo de grandes instituições financeiras. No esquema, valores em espécie eram transportados por carros-fortes e entregues diretamente a um grande banco parceiro, que realizava a “bancarização” dos recursos para, em seguida, repassá-los para uma fintech.

Gritzbach revelou a roubalheira das fintechs

“Gritzbach explicou que nos locais onde circulam muito dinheiro em espécie, como na rua 25 de Março, em São Paulo, existe uma demanda pela conversão dos valores em TEDs, cheques e criptomoedas. Essa troca de valores em espécie por dinheiro digital é feita mediante o pagamento de taxas que variam entre 1% e 2%, afirmou. O delator revelou a facilidade com que essas estruturas são manipuladas na prática. Na condição de operador, basta abrir uma fintech vinculada ao CNPJ de um banco de maior porte para, em seguida, criar diversas contas fraudulentas usando nomes e documentos de terceiros”, descreve a reportagem.

A partir dessas contas fantasma, o dinheiro ilícito é injetado e transferido via TED para outros destinos. As contas falsas são encerradas no dia seguinte para apagar os rastros. “Se eu quiser, abro uma fintech hoje em nome de qualquer pessoa. Eu vou estar filiado a um banco, a um CNPJ maior. Eu, sentado na cadeira, abro quantas contas eu quiser, no nome de quem eu quiser, no CNPJ de quem eu quiser. Abasteço essa conta, mando a TED pra alguém e amanhã eu encerro a conta”, explicou Antônio Gritzbach aos promotores.

As apurações da Operação Carbono Oculto

Conforme aponta a reportagem, a delação e o assassinato de Gritzbach abriram caminho para que a Receita Federal e o Ministério Público Federal deflagrassem a Operação Carbono Oculto em agosto de 2025. Foram 350 alvos, entre pessoas e empresas ligadas ao setor de combustíveis, acusados de fraudes e lavagem de dinheiro. O PCC tem participação notória nesse setor. “Não vou dizer que ele foi o precursor dessa modalidade, mas como ele chegou até nós como um colaborador e com provas, inclusive consistentes, essas operações estão sendo deflagradas até hoje em decorrência da delação”, explica o promotor Lincoln Gakiya ao UOL.

Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), afirma que as autoridades já sabiam que o PCC lavava dinheiro no mercado imobiliário, no setor de combustíveis, com bebidas, no setor de tabaco e ouro. “Mas quando a gente vê a Rota na Faria Lima, a gente tem uma imagem muito forte do que é esse nível de corrupção”, enfatiza. Em sua delação, Antônio Gritzbach revelou que policiais da Rota faziam a escolta de membro da cúpula da facção criminosa.

"O criminoso está na Faria Lima e mora em cobertura"

“Antes a gente falava só sobre o Estado, mas agora a gente está falando: ‘Bom, então o PIB, o setor financeiro também está sendo corrompido por esse dinheiro do crime’”, disse a pesquisadora. “Ele trouxe isso em outros níveis de corrupção: diretores de departamento, delegados, policiais conhecidos. Infiltração em outras unidades que, até então, a gente não tinha conhecimento. Eu estou falando da Rota, por exemplo”, complementa Lincoln Gakiya.

“Gritzbach é a nova face do PCC. É aquela face do criminoso de colarinho branco, do criminoso que está na Faria Lima, de classe média alta, que morava numa cobertura, que frequentava os melhores hotéis e restaurantes, que tinha amizade com autoridades”, conclui o promotor. A mídia rentista, porém, parece que já se esqueceu o escândalo. O processo segue na Justiça, mas sumiu do noticiário. A turma da Faria Lima, que investe fortunas em anúncios publicitários nos jornalões, revistonas e emissoras de rádio e televisão, está numa boa!

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